Vazio

“Cada vez mais voltados para as preocupações particulares, os indivíduos se pacificam não por ética, mas sim por hiperabsorção individualista: nas sociedades que impulsionam o bem estar e a realização de si mesmo, os indivíduos, é claro, tem mais desejo de encontrar a si mesmo, de se auscultar, de se ‘drogar’ com viagens, música, esportes, espetáculos em vez de se defrontar fisicamente”. (A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky, pág. 169, Ed. Manole, 2005)

Neste parágrafo do filósofo francês, o trecho “se defrontar fisicamente” caberia bem na atual conjuntura. O isolamento é um estágio providencial para nos defrontarmos com nossa verdadeira realidade, sobre o que somos, o que nos falta e o que nos sobra. Sejamos realistas, gente, numa hora ou outra a Natureza nos daria um puxão de orelha. Já estava em tempo silenciar tanta barulheira inoportuna. Esses ditos bailes ou shows de pseudo músicas que entoam, em altos refrões, declamações obscenas em batidas sertanejamente descompassadas. Também os cultos ensebados de falsas glórias de missionários, que se enriquecem às custas da servidão de incapazes fiéis. Ou ainda a ascensão de super-heróis da autoestima, os ditos coach’s que lotavam auditórios com dicas mágicas e conselhos revolucionários para a emergência financeira. Nem sei se devo comentar do Futebol, cujos milhões destinados à construção de glamurosos estádios para a Copa do Mundo, atualmente servirão para abrigar pacientes em tratamento do COVID-19, em caso de sobrecarregar hospitais e clínicas.

Sobre o pessoal da Arte, posso dizer que continuamos a fazer nossa parte. As instituições culturais de todo o mundo que realizariam mostras e feiras de Arte adiaram seus eventos, no entanto continuam mantendo o compromisso de divulgar imagens e informações em suas redes sociais fazendo uma coerente curadoria  de obras, livros, filmes, artistas e suas trajetórias, passeios virtuais em 360°, além de vídeos com depoimentos de profissionais relacionados à cultura sobre o impacto da pandemia no circuito da Arte.

Em 2008, visitei a 28° Bienal Internacional de São Paulo, “Em vivo contato”. O momento era delicado, a verba para o evento estava reduzida e o prédio sofria de restrições, embora já houvessem concordâncias sobre “dar uma freada” e estabelecer um conjunto de artistas mais qualificados e comprometidos com a crítica ao sistema e necessárias mudanças de comportamento.

O primeiro andar foi um experimento à interação, o público seria responsável em fazer parte de tudo, sendo elemento indispensável da obra e do evento de Arte. A disposição de mesas e cadeiras para atividades coletivas, a troca de conhecimento, o respeito do espaço mútuo e a responsabilidade um com o outro. Um exemplo dessa troca foi o quiosque de chaveiro, um reade made funcional, onde se fabricava a chave do portão dos fundos do prédio da Bienal, que o espectador poderia trocar por uma chave que fosse sua. O segundo pavilhão estava completamente vazio e foi essa marcante característica que lhe valeu o nome “Bienal do Vazio”, por causa também da falta de financiamento do governo e de empresas. O terceiro andar manteve uma curadoria sóbria, mas com clima de recessão.

Tão atual como há 12 anos atrás, o vazio em nós tem outro nome, o COVID-19. Quando achávamos que a sífilis seria o inibidor da libido desenfreada entre nós, vem um bichinho verdinho invisível para avassalar nosso conceito de liberdade. É hora de refletir sobre esse vazio. O que estamos fazendo, produzindo, para quê, para quem, por quê?

Finalizo com mais um trecho de Lipovetsky:

“O fato de a vanguarda se encontrar esfalfada não quer dizer que a Arte morreu, que os artistas não tem mais imaginação, mas sim, que as obras mais interessantes deslocaram, já não procuram inventar linguagens em ruptura, são mais ‘subjetivas’, mais toscas ou obsessivas e abandonaram as alturas da pesquisa pura do Novo”. (Era do Vazio, pág. 97)

Vamos em busca de renovar conceitos, reinventar linguagens e romper com velhos padrões, que visivelmente não estão dando mais certo. Fiquem todos bem! Aproveitemos nossos vazios para brevemente nos enchermos de responsabilidade e confiança uns nos outros!

bienal

“Bienal do Vazio”, 2008. No fundo do pavilhão, lado esquerdo, o quiosque “Chaveiro Talismã”, de Paul Ramirez Jonas.