Templo

Há uma semana, pela segunda vez leio o termo “templo” para designar edificações destinadas em abrigar obras de arte. A primeira vez foi no texto sobre a Galeria Lygia Pape no Blog do Instituto Inhotim https://www.inhotim.org.br/blog/o-templo-de-lygia-pape/. A segunda, li no livro de Hilma af Klint “Paintings for the Future”(2018), da legenda “Plans for a temple” (1930), um estudo resenhado pela artista em sua caderneta de anotações que foi inspiração para a construção do prédio do Museu Guggenheim, em Nova Iorque,  projetado pelo arquiteto, Frank Lloyd Wright e inaugurado em 1959.

Se a nomenclatura nos museus, teatros, institutos e galerias de arte fosse substituído por “Templos” faria mais jus às verdadeiras intenções destas instituições na sociedade. Não que o culto à Arte viesse a ser um mecanismo de dominação em massa, como a Religião, mas o discurso, o diálogo e a narrativa do contexto cultural clamariam mais por questões baseadas na Filosofia, Estética e conduta Ética como um dever civil, do que propriamente uma aceitação por um Deus personificado e estereotipado. A compreensão da Arte provê a liberdade de pensamento, oportuna a empatia como veículo de conhecimento, inspira a autonomia como satisfação e, por conseguinte, a felicidade.

Visitar uma exposição de Arte é ter a oportunidade de entender a história das obras, da curadoria e do artista. É uma aula que elucida mais e traz positivos resultados à sociedade do que aglomerações abatidas por batidas descompassadas de sermões sobre punição divina, paraíso, culpa, céu e inferno. Vamos lá, pessoal, a gente sabe muito bem que “aqui se faz, aqui se paga, aqui se jaz”.

O psicanalista Christian Dunker acaba de publicar um texto na página https://artebrasileiros.com.br/cultura/coroa-de-espinhos-christian-dunker-peste-coronavirus-saude-mental/ , onde disserta sobre a autocrítica e encargos de consciência que cada um deve carregar. O texto de Dunker, intitulado “Coroa de Espinhos” traz a ilustração da obra “Tentação de Santo Antônio”(1650), de Jees Vem Craesbeek projetando uma luz sob nossas fraquezas de pensamento e como é de costume transferirmos nosso sentimento de culpa ao outro para nos eximirmos das responsabilidades.

Pois bem, a compreensão da Arte faz exatamente o oposto, ela demonstra o que cada um é capaz através do conhecimento cultural, suavizando o olhar para o outro, a inibição do preconceito e da culpa e a potencialização da auto crítica como fonte inesgotável de reclusão e livramento. A compreensão da Arte possibilita exercitar os sentimentos para que possamos ser donos de nossas próprias vontades, escolhas e atitudes e estejamos prontos em aceitar as consequências de nossos atos. Que neste Domingo de Páscoa a quaresma tenha cumprido com suas tradições e, ainda que na quarentena, possamos enxergar a luz em outros Templos.

plans for a temple spiritual

Caderneta de anotações de Hilma af Klint, “plans for a temple” ou “temple of the spirit”, 1930-31

Por Sérgio Valle DuarteA

Vista do Museu Guggenheim, NY. Foto recente de Sérgio Duarte A. Via Wikipedia.