Teia

No texto do Domingo passado ressaltei que várias e sérias Instituições Culturais prosseguem seus trabalhos, apesar do isolamento e o adiamento de eventos, postando em suas redes sociais diversas informações, mantendo um diálogo com seu público mesmo que virtualmente. Pois bem, na última quinta-feira a curadoria do @museoguggenheim, em Bilbao postou um vídeo sobre a obra “Mamá”, da francesa naturalizada americana, Louise Bourgeois (1911-2010). A obra é uma gigantesca aranha em bronze, majestosamente alocada no pátio externo do museu, onde é possível se deslocar ao seu redor e vislumbrar seus imponentes detalhes. A artista denominou a obra em homenagem à sua mãe que foi uma exímia tecelã, assim como o mito de Aracne, a humana que desafiou Atená, na mitologia grega. A competição entre a humana e a deusa acaba com o castigo de Atená sobre a arrogante humana, que a transforma numa aranha, eternamente fadada a tecer suas teias.

Em Julho de 2019, revisitamos o Instituto Inhotim para conhecer, enfim a Galeria da fantástica artista neoconcreta Lygia Pape (1911-2010) que abriga a obra “Tteia C1”.  Após atravessarmos os suntuosos jardins do parque, nos deparamos com um fabuloso bloco de concreto facetado que guarda em seu interior um ambiente paralelo ao externo, com uma atmosfera cósmica muito familiar. A penumbra iluminada por feixes de luz refletidos nas linhas douradas que se despendem do teto até chegar ao chão formam teias diagonais milimetricamente perfeitas. A jornalista Bruna Nicolielo descreveu as impressões sobre a obra e o depoimento da artista para o blog do Inhotim:

“Certa vez, em um depoimento, ela declarou que circular pela urbe se parece com o feitio de uma teia, por uma aranha. Como o animal que produz sua rede de fios para uma dada finalidade, que vai da captura de presas à cópula e ao abrigo, andamos pela cidade criando fluxos próprios. Para Lygia, nesse trânsito elegemos espaços importantes e de afeição, que marcam a experiência humana. Essas reflexões se concretizaram nas Tteias, que, não por acaso, remetem às palavras teia e teteia, que no linguajar do povo, significa algo bonito, gracioso”.

Magicamente, ambas artistas se identificam com a teia, com o entrelaçar, com os laços da afetividade. O tecer é um ato místico e milenar, suas simbologias e superstições são descritas por culturas celtas, nórdicas, gregas, bíblicas ou exotéricas. Estamos todos conectados, em teia, em rede, em vida. Que gracioso poder observar estes gestos artísticos, que embora tão distantes podemos contemplar virtualmente. Entre o medo de ser contaminado, envenenado ou picado por um aracnídeo, deve haver também o sentimento de o contemplar como um ser da Natureza, que faz parte da cadeia alimentar, que tece sua teia como qualquer um que tece sua vida. Resta entender que Atená teve lá as suas razões quando castigou Aracne, pois cada ser deve aprender e entender o lugar que lhe cabe, a se posicionar perante os fatos da vida com justiça e respeitar as regras da Natureza. Afinal, Ela é quem tece os seres da cadeia alimentar, ou não?!

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Galeria Lygia Pape, 2019

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“Tteia 1C” (1977-2000), Lygia Pape, Instituto Inhotim