PASSADOS / PAST

A poética das pontas e das pontes, por Enock Sacramento, Membro da Associação Brasileira de Críticos de arte:

Há alguns anos, o artista Rubens Ianelli iniciou uma série de desenhos, pinturas e esculturas com características formais, colorísticas e temáticas que deram origem à série das Cidades perdidas, uma das mais sensíveis de sua carreira. Rubens recriou, inspirado no texto de As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino, urbes distantes no tempo e no espaço, soterradas pelo esquecimento, delgadas, simbólicas, pretéritas, imemoriais. Cidades invisíveis que ele tornou visíveis, cumprindo a missão do artista preconizada por Paul Klee em seu livro La théorie de l’art moderne: L’art ne reproduit pas le visible. Il rend visible.

No livro de Calvino, Marco Pólo conta para o imperador Kublai Khan suas viagens por cidades imaginárias em relatos curtos, relacionando-as à memória, ao desejo, aos símbolos, às trocas, aos mortos, ao céu. O resultado é um texto fascinante, que atrai o leitor e o deixa perdido num contexto de alumbramento no qual estão presentes as qualidades que o escritor italiano considerava fundamental para a literatura (se preferir, leia-se vida): leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade.

Em suas obras da série Cidades Perdidas, aqui representada pelas esculturas Aldeias, Cidadela e Lança e pelas pinturas Arquedutos, Balanço, Bandeiras, Espaço II, Lanças I, Caminhos do menino e Vermelho-vermelho, algumas incluídas entre as mais destacadas da série, Rubens Ianelli desperta no espectador um sentimento semelhante ao que se experimenta em contato com o texto do notável escritor. Suas construções lembram castelos enfileirados, justapostos, com suas escadas, suas clarabóias, suas portas, seus arcos, mas, sobretudo, com seus telhados ou torres que terminam quase sempre em ponta. Nas pinturas ele faz cantar os azuis, os vermelhos, os laranjas, às vezes um canto suave, de câmera, mas sempre vivaz, profundo e consistente.

Já a pintura de Fogaça recria cidades concretas, materiais, mediante um ritmo dinâmico próprio das megalópoles e uma paleta de cores intensas que vão do azul ao vermelho, passando pelo amarelo, e que incorporam com frequência as secundárias verde, violeta e laranja. Fogaça não se afasta muito desse espectro colorístico, o que tem contribuído para a consolidação de uma linguagem pictórica forte, consistente.

É conhecido que ele tem como leitmotiv de sua obra os grandes conglomerados urbanos, feitos de viadutos, pontes, construções verticais destinadas a moradias, ao fabrico de mercadorias, aos centros comerciais, aos locais de prestação de serviços, que se dispõem em ruas, avenidas e praças, ocupadas sobretudo por homens e meios que os transportam da casa para os locais de trabalho ou lazer e vice-versa, além daqueles que encontram no trânsito o seu meio de vida – e, às vezes, de morte – tais como os motoboys e os taxistas. Fogaça se dedica ao tema há anos, o que revela seu firme desejo de aprofundamento.

Para Jorge Luis Borges, a verdadeira arte deve ser como um espelho, no qual vemos refletida nossa própria imagem. Ou seja, ela deve se referir ao humano, de uma forma ou de outra. Dentro dessa perspectiva, Fogaça faz uma arte profundamente verdadeira por que toma como ponto de partida a realidade brutal das grandes cidades, na qual milhões de pessoas estão inseridas, mas a transforma numa outra realidade que é a sua pintura. Com os elementos fundamentais da pintura, ou seja, a forma, a cor, o ritmo e a textura, Fogaça constrói sua cidade, uma cidade cada vez mais pictórica na medida em que as composições anteriores, que incluíam dezenas de elementos, vão se concentrando em menor número de figuras num processo de abstração da cidade que o aproxima da pintura-pintura. A pintura de Fogaça de há muito deixou de ser uma promessa. Ela é, atualmente, uma notável realidade, presente em coleções importantes.

Os artistas:

 

Rubens Ianelli:

Rubens Vaz Ianelli nasceu em 1953 na cidade de São Paulo. Filho do artista plástico Arcangelo Ianelli e sobrinho de Thomaz Ianelli, pintor e aquarelista, Rubens teve uma estreita ligação com as artes desde a infância. Destaca-se, ao longo de sua carreira, a partir da década de 1970, além do engajamento na luta contra o regime militar e atuação no movimento estudantil, a ativa participação nos Salões de Arte Moderna e Contemporânea do país, onde obteve seus primeiros prêmios em pintura com trabalhos geométricos. Nos aos 1980, inicia o estudo de Medicina. Em 1989 realiza no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo, sua primeira mostra individual, intitulada “Homenagem aos Povos que Lutam”. Marca presença nos salões nacionais e obtém novos prêmios com suas colagens. Nos anos 1990, o artista prossegue em seu exercício autodidata de observação. As técnicas se diversificam – carvão, grafite, pastel, guache, óleo, nanquim, extrato de nogueira – e a exploração da figura se aprimora. Consta, também dessa época, a incursão de Rubens no mundo da pesquisa científica ligada aos estudos de saúde pública, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-Rio), e o trabalho como sanitarista na área de grandes endemias entre populações indígenas do Brasil. O convívio com mais de 10 etnias diferentes influencia sua produção artística, sobretudo sob o aspecto gráfico. Ao final de 1999, Rubens recebe o convite do Ministério da Saúde para ajudar na implantação dos distritos sanitários indígenas no Acre, onde permanece durante todo o ano de 2000. Como médico, seu trabalho social atinge o ápice e sua atividade se amplia em prol da organização dos serviços de saúde dirigidos às populações nativas. Como artista, sua produção ganha matizes cada vez mais próximos à cultura de raiz, sob a influência não apenas da arquitetura das habitações indígenas, mas, principalmente, do grafismo de diferentes etnias, que tem sua expressão máxima na pintura corporal. Em 2001, Rubens se distancia da saúde pública para então se dedicar integralmente à arte, sempre em busca de um caminho próprio, alheio à rigidez das escolas e do senso-comum das tendências de linguagem. Além do desenho e da pintura, Rubens faz incursão no objeto, na gravura e na escultura. Em 2003, ele se dedica à elaboração de maquetes de escultura em ferro, tendo como base seus trabalhos geométricos da década de 1970. Mantendo seu ateliê em São Paulo, Rubens executa, a partir de 2004, pinturas em grandes dimensões, esculturas em ferro e objetos, até agora, em grande parte, nunca expostos.

G. Fogaça. G. Fogaça (Jecimar de Souza Arruda), cujo nome artístico é em homenagem ao pai, Gessiron Fogaça, nasceu na Cidade de Goiás/GO, antiga Vila Boa, em 1967. Começou a desenhar aos 08 anos de idade e realizou as primeiras pinturas em preto e branco, com tinta automotiva. Na primeira oportunidade, mudou-se para a capital Goiânia e depois de 05 anos começou a expor seus primeiros trabalhos. “Assim, podemos creditar a sua percepção artística ao determinante pendular do movimento histórico, que vai da calmaria da sua origem, uma pacata cidade do interior de Goiás, onde passou a infância e chega ao seu contrário, se envolvendo plenamente na ágora moderna da megalópole”. O artista foi selecionado para mostras em diversas galerias e espaços culturais no Brasil e no exterior, dentre eles, Prêmio FUNARTE – Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais em 2010 – Projeto “Arte Contemporânea no Vale do Araguaia”; Edital de ocupação dos Espaços Culturais da Caixa Econômica Federal – Galeria Vitrine da Paulista, São Paulo/SP – Mostra Coletiva 7 x Cidade – 2012; – Edital de Ocupação do Espaço Cultural Eletrobrás Furnas – Projeto “Realidad Ciudad – Brasil Cuba” – 2012; Consejo Provincial de Artes Plasticas- La Habana , Cuba – Projeto 2 x Brasil, Galería Carmen Montilla, 2012; Convocatória internacional do Festival Latino-americano e Africano de Cultura – FLAAC, UnB, Universidade de Brasília – Projeto coletivo Diálogos Latino-americanos, 2012. G. Fogaça vem desenvolvendo carreira internacional mediante exposições individuais em vários países, as quais ensejaram a publicação de artigos em importantes revistas de arte tais como Florilège, França, La Cigogne, Bélgica, Mallorca Fórum, Espanha, além de prefácios em catálogos assinados por críticos de arte do Brasil, Cuba, Chile e França. Em Goiânia, possui várias obras públicas entre elas “A Praça das Artes”, no Jardim Goiás e o monumento Bossa Nova, tendo ainda realizado intervenção em ponte na Marginal Botafogo.