Política & Cultura

No livrinho “Nietzsche – Uma Filosofia à Marteladas” (1984), o autor Scarlett Marton organizou as ideias do filósofo prussiano em breves sinopses cujos pensamentos flertam com uma rígida coerência realista:

Estado e Cultura são pólos antagônicos e adversários: um vive às expensas do outro. As épocas de grande fertilidade cultural correspondem épocas de decadência política. Impõe-se trabalhar para deixar se levar pelo ruidoso tagarelar político dos dias que correm (…) É preciso isolar-se, retirar-se do mundo para continuar a criar”.

A Revista GQ, do mês de Março concebeu entrevista com as duas duplas de irmãos, OsGêmeos e os Irmãos Campana e uma das perguntas do ping-pong fraterno foi “O que o brasileiro tem de melhor e de pior?

OsGêmeos responderam: “Todo brasileiro tem um pior e um melhor dentro dele. Crescemos aprendendo essa diferença. A gente precisa aprender a lidar e domar. Todo mundo tem os dois lados. Mas uma das piores coisas são os políticos.”

A resposta dos Campana focou no tema ambiental, mas sem fugir à crítica política.

Fernando: Melhor: carisma, disponibilidade, afeto, generosidade. Pior: falta de consciência ambiental e respeito à Natureza.

Humberto: Melhor: criatividade. Pior: o eterno jeitinho brasileiro.”

Entender a Filosofia através da Arte, do Design ou da Cultura é como entoar aquele jargão irônico: “precisa desenhar”? Nunca foi tão fácil enxergar as duas forças opostas que separam o joio do trigo, a água do óleo, a noite do dia. Política e Cultura não se beijam. Certa vez, alguém muito próximo confessou, com uma pontadinha de razão, que as leis de incentivo à cultura obstruíram o ciclo criativo das Artes Plásticas Brasileira. Enquanto que a efervescência dos anos 80 veio para iluminar as trevas de décadas de repressão militar movimentando um circuito fértil, autônomo e independente, a virada do século ostentou verbas milionárias à artistas medíocres, conhecidos ou reconhecidos pelos seus q.i’s (quem indica’s). Um negócio que girou em torno de artistas e produtores vinculados à lobbies e contatos de empresas para financiar exposições que se auto promoviam sem necessitarem do mercado, isto é, da cadeia de profissionais da área como historiadores, curadores e críticos de arte para endossá-las. A Política de Incentivo, em alguns casos (e digo apoiado naquela pontinha de razão) desviou o olhar crítico sobre a Arte para incentivá-lo como negociata.

Em vista da pandemia, a ideia de “isolar-se, retirar-se do mundo para continuar a criar”, segundo Nietzsche é muito bem-vinda hoje em dia. É hora da Arte se mostrar com lucidez, esperança e autonomia. É nas Trevas que se faz necessária a Luz. Um país que não entende seu passado não terá consciência do seu futuro. Que saibamos discernir a qualidade de produção artística de cada época e valorizá-la como ela merece. O futuro é agora!

campana e nósIgor e Tatiana Potrich em lançamento do livro Complete Works, Campana’s Brothers, na AZdecor, em 2010.

Tatiana Potrich com Humberto e Fernando Campana, no Earq, em 2015.