O peso da verdade

O vencedor do Prêmio Jabuti e imortal na Academia de Letras, o escritor baiano, João Ubaldo Ribeiro (1944-2014) tem uma célebre frase que resume o significado do título do texto:
O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, existem histórias”.
Então vamos às histórias:
O cearense, Leonilson (1957-1993) foi o primeiro jovem artista brasileiro a merecer, logo após sua morte, um estudo e edição do livro “São tantas as Verdades” (1998), organizado pela crítica de arte Lisette Lagnado, que reuniu mais de 120 imagens e entrevista inédita. O nome do livro é uma entre tantas outras frases distribuídas em seus trabalhos, onde disserta sentimentos íntimos como num diário particular. Tal qual um poeta, Leo alinhava literalmente letras bordadas em versos, dilacerando a realidade, entonando sonhos, expressando a beleza da dor e as ambiguidades da vida. Leonilson integrou o grupo de artistas da Geração 80 e manteve significativo contato com grandes nomes da arte brasileira como Leda Catunda, Sérgio Romanolo e Eduardo Brandão. Leo tomou como inspiração a arte de artistas e seus distintos suportes elaborando um criativo discurso visual com referências simplificadas de técnicas e formas das obras de Antônio Dias, Arthur Bispo do Rosário, Edgar de Souza, Daniel Senise, Waltércio Caldas, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Em 1985, expõe pela primeira vez obras em tridimensão que integraram a instalação da 18ª Bienal de São Paulo, “O Homem e a Vida”. A foto divulgação, onde o artista segura o globo em fios de aço nas suas costas simbolizou o tema do evento parodiando uma entidade da mitologia grega. Assim como Atlas foi obrigado a carregar o peso do planeta Terra nas costas, por ser o maior e o mais forte dos Titãs, Leo foi o Homem a representar o artista que carrega o peso da Vida. Portador do vírus HIV, expressou em suas obras a vulnerabilidade da vida denominando seus trabalhos com sugestivos títulos: “Moedas de artista, dias contados” (1985), “Aqui está meu coração. Ouro de artista é amar bastante” (1989), “Grandes homens, mesmo veneno” (1991). Em entrevista para o livro, declara: “Os trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente, mas mostram uma visão aberta”. No ano de 1993, com uma breve e intensa carreira internacional, o artista falece precocemente aos 36 anos deixando cerca de 1000 obras, 800 delas catalogadas. Em 1998, sua fotografia com o globo é usada na confecção do logotipo da 24ª Bienal de São Paulo. “São tantas as verdades” é o relato de um artista que passou pelo prazer de vivenciar o amor e a dor na mesma intensidade.
Não sou dada à Religiões, embora cultive a religiosidade como exercício espiritual, mas achei interessante um pensamento do tietado Padre das Celebridades, Fábio de Melo, que diz assim:
Ninguém é capaz de produzir a Verdade. Nem tão pouco alterá-la. Ela será de quem procurar por ela”.
Leo procurou, achou e descansou em paz, nos deixando uma imortal e preciosa produção artística. Com essa história toda a gente começa a entender que segurar o peso do mundo nas costas não é pra qualquer um não, apenas para os grandes, os fortes, os que conseguem suportar a arte de viver em Verdade. Num é verdade!?

leonilson

Leonilson em foto por Eduardo Brandão, 1985