O artista sempre esteve nu

Existem muitas maneiras de iniciar uma pesquisa artística. Um novato pode começar com estudos sobre utensílios, estamparia, azulejos, joalheria, expressões corporais, experimentos científicos e tantos outros suportes. Mas o artista bom, o que se entrega de corpo e alma, se desnuda como num show de strip tease. Não estou dizendo que strip tease seja arte (quase que Demi Moore, ao som de Annie Lennox me provou o contrário), mas digo como performance ou happening, enfim o artista se desnuda, se mostra plenamente, sem negar suas origens, seus ideais, sejam eles bons ou maus, contudo sinceros, coerentes e elucidativos.

Quando tivemos a ideia de abrir o Edital de Seleção firmamos o compromisso de mostrar à sociedade goiana a produção destes novatos (ou não) que estão atentos, lúcidos e mordazes em seu ofício. Aqueles que agradam e ferem os olhos e o coração! Aqueles que dizem a verdade sem medo das consequências e vivem conforme seus princípios. Estes 20 artistas inscritos passarão por um processo seletivo de avalição, não para se envaidecer ou alimentar seu complexo de superioridade, mas para reforçar sua capacidade de exercer essa função.

Um artista, assim como um juíz deve sim passar por um concorrido concurso  para ser um profissional justo e competente. Deve ele cumprir com seu dever mesmo indo contra a opinião alheia. Este profissional não deve se render ao mercado, não deve aceitar mentiras, barganhas ou manipulações, mas e principalmente ser imparcial sobre elas. O mesmo se dá ao artista quando ele submete seu trabalho à um Concurso de Salões e Premiações de Arte, mostras em espaços culturais e admissões em instituições de ensino artístico. Ele ou ela devem ser avaliados por uma banca qualificada. Profissionais que entendam a História da Arte, o mercado cultural, a estética, o comportamento social e as premissas dos conceitos filosóficos, assim como também se exige no Direito. Devemos ser justos com o candidato e com sua obra. É um árduo ofício! Um bom artista não vive só de louros e holofotes, eles enfrentam guerras e balas perdidas, documentam a verdade, se jogam no fundo do poço para entender a escuridão e a desigualdade, aprofundam seus conhecimentos nas áreas mais escondidas da psique humana para entender os movimentos da Natureza, seus fluxos e refluxos. São estes artistas que tem de ser respeitados e valorizados, estes que enfrentam concursos, bancas qualificadas, olhares de curadores, historiadores, diretores e colegas de trabalho para endossar sua obra, sua pesquisa artística. É realmente um privilégio para estes 5 artistas selecionados estarem ao lado de veteranos, que enfrentaram tantas bancas e se desnudaram para seus espectadores simplesmente para lhes mostrar a verdade.

Não é sobre enxergar se o Rei está ou não nu, mas nos desnudarmos dos falsos valores e valorizarmos os verdadeiros artistas. Aqueles que realmente se encorajam para ficarem nus diante de nós e finalmente nos mostrar o que pensam, o que pesquisam, o que está acontecendo. Estes são pré-cientistas. Acreditem!

ana maria

Gravuras da artista goiana, a veterana Ana Maria Pacheco (1943), no acervo do MAC – Museu de Arte Contemporânea de Goiás. Obra da artista e de outros veteranos integrará a mostra de nossos 40 anos com os 5 artistas selecionados. Resultado do Edital será divulgado em breve. Foto de Leonam Nogueira.