Espírito Santo

Recordo como se fosse hoje o dia que fizemos o curso para batizar o meu primeiro filho. Ele nasceu no mesmo dia que completou um ano exato do meu encontro com seu pai e coincidentemente, no mesmo dia do meu Batizado, há 42 anos atrás. Uma honra e surpresa para mim, que sou apenas uma reles católica não praticante. O fato é que a aula do padre sobre os dogmas do Batismo foram de certa forma bastante reconfortantes e coerentes dado a tantas incertezas da vida. Ele ressaltou que quando a criança recebe o Espírito Santo ela fica protegida dela mesma. Haja vista, que o ser humano é mal por natureza, sua essência pela sobrevivência o deturpa, o corrompe, o desencaminha. O Batizado é uma bênção, um benzer mítico, uma proteção espiritual contra o nosso maior inimigo, nós mesmos. Noutras culturas os rituais se diferem, mas tem o mesmo propósito.

Entender o sentido do Espírito Santo e suas diversas formas de manifestação é um ato de empatia, humanismo e equidade. Os monges, os yogues, os umbadistas, os kardecistas, os do Candomblé também se benzem, se protegem e acreditam no mau que nasce junto com nosso instinto de sobrevivência. Movida pela espiritualidade decidi escrever este texto como uma confissão deste meu lado naif de ser. Sou uma adepta à mediunidade, adoro uma roda de batuque, pernadas, braçadas, rituais lisérgicos e entrega espiritual. A arte da Capoeira me abriu este chakra e feliz ou infelizmente estou condenada a adorá-la pelo resto da vida.

Acredito que tudo é um chamado, uma vocação. Certa vez disse à uma colega que não é a gente quem escolhe a Capoeira e sim ela que escolhe seus discípulos. Tem que ter coragem, coluna, sola do pé dura como o chão e muita ginga no corpo. Achei bonito e pertinente a entrevista do psicanalista, Contardo Calligaris para o site Gaúcha AZ Comportamento, em 28/04/2020:

“Os ônibus voltaram a estar lotados, não sei quem teve a ideia de diminuir o número de veículos, só para baixar a gasolina, porque iria acabar aumentando a lotação. Esse exército permite a uma casta que não é mínima, as classes A e B, com alguns pedaços da C, se manter protegida. É uma tamanha confirmação da dolorosa desigualdade social brasileira. Seria útil que as pessoas da A e da B lessem Gilberto Freyre durante este período, não Casa Grande e Senzala, mas Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, para entender como chegamos nessa. A divisão e a desigualdade existem no mundo inteiro, mas nós temos algo distinto. Os que podem se proteger e os que podem se contaminar”.

Indicar Gilberto Freyre em tempos de pandemia é um ato de coragem. Ler Freyre é uma vocação. Foi o primeiro livro da trilogia quem me escolheu: “Casa Grande e Senzala” (1933). Tenho tatuado no braço o nome do livro que é também o apelido dos dois irmãos capoeiristas que conheci no ‘ringue’ de uma roda na praça. Casa Grande é o mais novo, belo e um típico atleta de ébano e seu irmão, Senzala dispensaria comentários não fosse seu intrigante intelecto. Assistir ao duelo fraterno destes dois foi uma epifania, após ter concluído meu primeiro livro do sociólogo pernambucano. Aquele magnetismo me chamou, me conquistou de vez. Foi como se o Espírito Santo, Emí Mimò, abençoasse a minha vocação, o meu bem querer pela cultura brasileira, pela minha saúde física e mental, pela minha consciência desta cabulosa desigualdade social a qual vivemos.

São mais de 20 anos de relação e me sinto completamente realizada pelo que consegui aprender na prática, mas principalmente na teoria. A Capoeira é um viver filosófico em liberdade e disciplina! Ela é meu Espírito Santo!

 

capoeira

Obra “Capoeira” e pote em cerâmica pela artista mineira naif, Helena Vasconcelos. Gravura e desenho em papel, do artista e gravador fluminense Zècésar.