PASSADOS / PAST

 

Às vezes, quase sempre, é bom se deixar levar pela intuição, e não pensar.

Os preconceitos fodem muita coisa na vida.

Pedro Juan Gutiérrez, “Trilogia suja de Havana”.

 

Ansiedade, angústia, selvageria, caos e equilíbrio; paranoia, fobia, tensão, ritmo. Vir sempre do limite, de espaços comuns à margem, de linguagens reinventadas pelos caminhos da vida, autodidatas entre cerveja e cerveja, aguçando os sentidos, a cada passo no meio da selva de asfalto. Vir sempre do limite, remarcar a margem, pintar a diferença, ser a diferença; underground mordaz, escatológico, casual, transgressor do limite, de todos os limites. Viver justamente na divisa do admissível e do proibido, do bem e do mal, da pobreza e da riqueza, do justo e do menos justo. Flertar com a loucura, exorcizar os demônios, encostar-se à genialidade, voltar ao limite que a razão impõe; que a sociedade impõe; que os homens impõem.

Este até parece um ofício aprendido, “o ofício de artista” à maneira do “gênio boêmio criador”, mas, para G. Fogaça e Pitágoras Lopes é o impulso vital; nele realmente se passa a vida, a razão, a possibilidade de se continuar respirando, mesmo que no limite, na borda mesmo do limite; sem metáforas, sem atitudes conceituais maiores que suas próprias práxis vitais. Eles pintam o que são e o que veem, de um ângulo privilegiado: “O ângulo do artista.” Com suas obras – noturnas, azuis e fugazes, de planos cinematográficos, fragmentos da realidade, close-up de estranhamentos, sordidez expressionista: Fogaça; oriundas de fábulas, surreais, remake pop, pastiche contracultural assumido a partir da bad painting: Pitágoras – nos deixam viver, por um instante, junto a eles, na fronteira real do abismo ontológico: homem, artefatos, máquinas, natureza e sociedade, numa amálgama catártica.

Os primeiros vestígios pictóricos da humanidade realçam, até nossos dias, precisamente essa habilidade natural de refletir o mundo como o vimos ou cremos que o vemos: “uma arte que segue o seu próprio ritmo, sem estar matizada pela cultura artística”1, como definira o pesquisador e criador francês Jean Dubuffet até os meados do século XX, a partir de seus estudos sobre a psicanálise e, especialmente, motivado pelos textos de Hans Prinzhorn (Expressões da Loucura), ao reformular dentro das vanguardas modernas os conceitos do que se denominou art brut para se descrever “a arte criada fora dos limites da cultura oficial”2, associada desde o início com a arte primitiva, infantil e psicótica e mais tarde estendida a outsider art, ou arte marginal, que também inclui a arte produzida por artistas autodidatas ou naifs”, com a premissa de um indivíduo criativo que opera em grande parte despreocupado (e idealmente desinformado) das expectativas dos demais. A interioridade é de fato a chave da mentalidade do autêntico marginal, cuja obra aparece principalmente no imaginar e divagar. Navegando à base da intuição, o criador espontâneo só vai ao encontro de suas necessidades particulares, e parte sem piloto numa direção que prescinde alegremente de convencionalismos”3, que em geral se caracteriza pela repetição de imagens e é desprovida de qualquer estética preestabelecida, de qualquer limite. “A característica inconfundível dos principais artistas marginais tem a ver com a estruturação de um mundo alternativo abrangente que acaba se tornando, na prática, uma cosmologia própria”4.

A exposição itinerante “Borderline” reúne dois artistas cujas obras refletem universos caóticos, que mostram as obsessões pessoais de G. Fogaça e Pitágoras Lopes; não é suficiente apenas refletir suas ansiedades repetidas vezes. Morfologicamente, os seus traços, linhas, cortes, texturas, nuanças, servem de suporte e descrevem outra realidade, reconstruída dentro dos limites de todas e de cada uma de suas pinturas.

As cidades azuis, desconfortáveis, desumanizadas, não são mais do que a necessidade consciente ou inconsciente de G. Fogaça voltar sempre física e espiritualmente à sua cidade natal, Goiás, ou mais além, à verdadeira selva, às margens do Lago dos Tigres, na pequena Britânia, no interior do Estado de Goiás, no Centro-Oeste do Brasil, onde pescava e pintava quando era criança. A cor azul da cidade sempre noturna nos remete à morte, experiência gravada em sua memória, desde que seu avô tinha como ofício a confecção de caixões; cada matiz de cor simboliza o tecido escolhido de acordo com o cadáver: laranjas, verdes, rosas, mulheres, crianças, jovens, idosos. Gradualmente, sua grande paisagem urbana começa a aprofundar em detalhes grotescos, sórdidos, horripilantes. Certamente tudo isso pode estar contido na interpretação de suas obras, são as suas referências, mas a necessidade premente do homem contemporâneo de voltar às suas origens, de fugir do estresse diário das grandes cidades, faz-nos identificar rapidamente com a sua proposta e é uma armadilha dupla, para nós, os espectadores, e para o próprio artista, porque G. Fogaça também é um homem contemporâneo preso em seu próprio entrelaçamento de morador da cidade grande, copartícipe do reality show da sociedade pós-moderna.

Na outra ponta, obviamente influenciado pela cultura pop norte-americana através da música, publicidade, moda, língua, gráfico, espírito urbano das grandes cidades norte-americanas, há Pitágoras Lopes, que confessa ser fã fervoroso de tal cultura, talvez como uma alternativa de escape de seu próprio contexto de Brasil conservador de sua juventude; sua pintura é cheia de itens aparentemente desconexos: desenhos, colagens, fragmentos, detalhes inacabados, apatia expressa sobre os próprios materiais, texturas irreverentes, camadas de esboços superpostos… Desordem de ideias? A bad painting ou pintura suja pode ser uma atitude aprendida neste desejo de reproduzir seus estereótipos, mas também pode ser resultado natural da psique do artista, assim como aconteceu com Basquiat e pode acontecer com outros tantos artistas catalogados por galeristas e curadores dentro da chamada outsider art, se assumirmos que seu comportamento social foge das normas estabelecidas e suas representações simbólicas ficam longe dos padrões formais e conceituais da cultura artística contemporânea. Mas também aqui estamos diante da dúvida razoável: é preciso que o artista abandone esse mundo de alucinações que o aflige ou é necessário que nós, como espectadores, darmos sentido ao que vemos e que tentemos decodificar suas mensagens? Obviamente seus artefatos, montagens e maquinarias nos fazem lembrar o quanto a tecnologia tem nos afastado da natureza e da essência humana; sociedade e desenvolvimento são funcionalmente inseparáveis, uma vez que se torna difícil de entender que o equilíbrio é necessário. As obras de Pitágoras nos fazem ver isso, inevitavelmente.

Muito se tem escrito sobre a crise filosófica e axiológica e a busca de novos significados na sociedade contemporânea de como a arte tem gradualmente se transformado de sua aparente e questionada representação estética, de sua atitude clássico-romântica, desarticulada desde o início mesmo das vanguardas, até chegar a uma cínica reformulação simbólica a partir das noções culturais e tecnológicas incorporadas ao longo da história da humanidade, o que os teóricos chamam de pós-modernidade. Lembrando que o hiper-realismo é precisamente um sintoma da cultura pós-moderna, uma maneira de se descrever a informação de que a consciência é exposta. Se nos referirmos ao conceito de Jean Baudrillard, que sugere que “o mundo em que vivemos tem sido substituído por um mundo copiado, onde buscamos nada mais do que estímulos simulados, uma sociedade cujos cartógrafos criam um mapa tão detalhado que imita o mesmo que ela representa”5, podemos então chegar à origem das nossas dúvidas: todos nós perdemos a bússola, que indicava os limites entre realidade e ficção, considerando-se que ela um dia existiu.

Filósofos e artistas ciclicamente voltam à história do passado, à pré-história, às origens dos povos e das culturas, para tentar encontrar respostas. Até aqui é quase uma pretensão esnobe, mas nos resignamos a acreditar que tudo está escrito, ou dito, ou criado, desde o início dos tempos.

Não obstante, uma coisa é certa: todo ser humano traz consigo, além de sua formação cultural, seu universo psicologicamente exclusivo e inimitável, que organiza e interpreta as informações de maneira única e, neste sentido, absolutamente autênticas; por isso cada produção simbólica seguirá tendo sempre algo de outsider, convivendo no limite do sociologicamente correto, da razão permissível, na linha de fronteira, provavelmente porque, como escrevera o próprio Jean Dubuffet, “Que arte não é louca? Quando não há loucura, não há arte.”6

A pós-modernidade é, antes de um movimento ou expressão artística e cultural, o conjunto de redimensionamentos filosóficos axiológicos, semióticos e estéticos que dão corpo à sociedade globalizada e mediática e, por conseguinte, põe em crise a organização das estruturas de conhecimento modernas: no político, no econômico, no sociológico e, consequentemente, na arte. Embora reconhecendo a pluralidade, a relatividade, a diversidade e a alternatividade, a pós-modernidade nos condiciona a uma nova sensibilidade, onde os arquétipos da historiografia e a historiografia da arte são cada vez menos ferramentas e mais caracterizações discordantes. Portanto, mais uma vez, nos resta a intuição.

 

”Borderline”, de G. Fogaça e Pitágoras Lopes são dessas experiências que nos trazem de volta à caverna de Platão, às fronteiras entre o mundo dos sentidos e o mundo do conhecimento. Sem deixar de serem artistas críticos, questionadores, que em cada obra parece nos mostrar uma autópsia do mundo contemporâneo, Fogaça e Pitágoras, vivem à margem, ressaltam a linha tênue e imperceptível, andam na borda e nos deixam uma porta aberta para esse espaço limítrofe entre a consciência e a inconsciência, como seres humanos e como sociedade.

Dayalis González Perdomo

Havana, Cuba, fevereiro de 2014.

 

 

1I Jean Dubuffet, Prospectus et tous écrits suivants, Tomos I, II, Paris 1967; Tomos III, IV, Gallimard: Paris 1995

 

2 Jean Dubuffet, Prospectus et tous écrits suivants, Tomos I, II, Paris 1967; Tomos III, IV, Gallimard: Paris 1995

 

3 Jean Dubuffet, Prospectus et tous écrits suivants, Tomos I, II, Paris 1967; Tomos III, IV, Gallimard: Paris 1995

 

4 Jean Dubuffet, Prospectus et tous écrits suivants, Tomos I, II, Paris 1967; Tomos III, IV, Gallimard: Paris 1995

 

5 Jean,Baudrillard(1978).Cultura y Simulacro. Barcelona: Kairós

6 Jean Dubuffet, Asphyxiating Culture and other Writings.

New York: Four Walls Eight Windows, 1986