PASSADOS / PAST

O título pode parecer uma palestra de Psicologia ou de uma disciplina de Filosofia, mas é a Mostra de Arte e Convidados do artista mineiro, radicado há mais de 40 anos na Dinamarca e atualmente residindo em Málaga, Espanha, J.Vasconcellos. Apesar do continente longínquo e do tempo lecionando e produzindo fora do Brasil, Vasconcellos não se distanciou de suas raízes, tão pouco de sua determinada jornada artística. Cercado por memórias e estudos da História da Arte, o artista confessa que grande parte dos arquétipos presentes em suas obras são lembranças da infância na fazenda de seu avô, em Minas Gerais. O sótão, ambiente tão temido pelas crianças por causa da escuridão, foi também o mais concorrido pela curiosidade e mistério das lembranças acumuladas em baús, caixas, bonecas antigas, porta-retratos e uma série de objetos dos quais ele se apegou e memorizou ao longo dos anos.

A grande admiração pelo pintor, Diego Velázquez (1599 -1660) também é uma marca registrada em suas obras, onde ele sempre frisa a pintura nos olhos vendados da “Série Velazquianas” em respeito às obras originais do artista espanhol. Influenciado pela magnífica cultura espanhola, Vasconcellos traz uma série de mulheres ‘emponderadas’ e à frente de seu tempo, como “Carmen” e a “Musa de Andalucia”. Em depoimento, afirma ser a Espanha o país mais originalmente cultural do mundo. A arquitetura, literatura, artes plásticas, cinema, design, tudo! E ele tem seguidores! Esse ar cigano, carregado de vida, cores e sons ainda ofuscam a cultura brasileira, talvez pelo maior desenvolvimento do país em áreas de competência educacional e filosófica. Mas suas raízes não o deixam negar seu entusiasmo pela mitologia indígena brasileira ou mesmo nas imagens que remetem aos retratos de família, as bonecas de pano e o arquétipo do Pai, o grã-Senhor da nossa sociedade patriarcal.

Vasconcellos é um artista denso, compulsivo e extremamente articulado, dada sua energia vital em seus quase 80 anos de idade. Transita entre América do Sul e Europa de duas a três vezes por ano. Realiza exposições em Galerias e Instituições de Arte do mundo inteiro. Participou de mostras coletivas em Paris, no Art Shopping -Carrousel du Louvre, individuais em diversas galerias da Europa e está em coleções importantes de sheiks árabes, franceses e críticos de arte internacionais. Foi o único brasileiro selecionado para doar uma obra ao acervo do Art Erotic Museum, em São Francisco, nos EUA. Seu engajamento cultural é basicamente um hábito, Vasconcellos, além da formação em Belas Artes, sempre esteve envolvido com a música clássica. O artista esteve casado com a renomada pianista goiana, Valéria Zanini, falecida em 2016, que ganhará destaque especial na mostra com seu retrato exposto in memoriam. A filha do casal, Bianca Zanini formada em Jornalismo, atualmente é correspondente no Canal 124 News, em Israel, o mais importante do Oriente Médio.

J.Vasconcellos é um idealista incurável, como todos os bons artistas o são, mas sua obstinação à figura humana é surpreendentemente uma idiossincrasia. Não escapa ao artista nenhum detalhe, a expressão feminina nos rostos de suas formosas musas, o olhar andrógeno em garotos pós-puberdade, a postura autoritária do Pai, até em suas bonecas alguma face ganha emoção. A aprimorada técnica em espátula e resina vegetal endossa a maestria do professor-artista latino-europeu. Incurável ou não, o artista goza de boa saúde física e mental e flerta com a contemporaneidade sem maiores problemas. Senhor, grã-pai e mestre em Belas Artes, J.Vasconcellos produz arquétipos baseados em suas memórias de família e nas relíquias da História da Arte.

CONVIDADOS

A música será mais uma das atrações na abertura da mostra. A cantora e violinista goiana, Milla Yuki é convidada do artista para dar o tom da graça de suas composições, assim como o duo Miguel Rojas, no contra baixo e Gabriel Garcia no violão. O artista também trará outras surpresas para sua retrospectiva de relicários! O fotógrafo dinamarquês, Neils Adelsten, a convite de J.Vasconcellos, trará um conjunto de imagens advindas de sua pesquisa em relação à simbiose dos vegetais. O artista dinamarquês desvenda nos troncos das árvores dos bosques da ilha de Sjaelland, as transformações dos fungos, cogumelos, pedras e suas mudanças de formas e cores, num espetáculo da natureza.

TATIANA POTRICH

SERVIÇO:

ARQUÉTIPOS – RELICÁRIOS DA MEMÓRIA

LOCAL: Potrich Galeria de Arte

CONTATO: 98177 01 78 – 98177 01 76 – 3945 0450