Zona de Conforto

Vocês irão me achar repetitiva, mas citarei o nome da artista Adriana Varejão novamente, não só porque ela é minha artista brasileira favorita, também por causa de sua relevância internacional, mas principalmente a postura ideológica e visual, assim como sua obsessiva investigação à respeito da formação da cultura do povo brasileiro.  Numa postagem no perfil de sua rede social, Varejão compartilhou uma tirinha do cartunista Maurício de Souza, onde a personagem Marina, com seus longos e ondulados cabelos castanhos sai correndo num campo gramado gritando: “Minha função como artista é mudar o mundo”. Aquela simplicidade e inocência que permeia as histórias em quadrinhos da “Turma da Mônica” (infantil) foi uma pérola aos olhos de meus filhos. Afinal, em tempos de “relações líquidas”, inteligência artificial e sexo virtual, quem são os verdadeiros artistas que mudam o mundo?

Pensar, questionar e ter autocrítica, atualmente virou artigo de luxo. As pessoas andam pagando caro por isso. São cursos de autoconhecimento, mindfulness, coaching, yoga ashtanga, eneagrama… Confundir artesanato, decoração, ilustração, pichação e terapia ocupacional com Arte se tornou um hábito. A recíproca é verdadeira, “precisamos mais da Arte, do que a Arte de nós”, então por que insistimos em pensar sermos todos artistas natos? Vou te contar um segredo: não somos. Nem todos somos a mudança significativa que o mundo precisa, afinal, o que Romero Britto mudou em anos de carreira? Será que ele inspirou as pessoas a mudarem comportamentos e ideologias ou conservou a antiga ladainha norte-americana que ressalta “the American dream”?

O artista de verdade não se denomina artista, é o sistema, o mercado e o tempo que percebe a solidez de sua pesquisa. Numa das palestras da Programação Cultural do GARiMPO-COLECiONiSMO foi citado o nome da polêmica diretora da Revista VOGUE Itália, Franca Sozzane (1950-2016), que revolucionou o mundo da moda e fez Arte de verdade. A pequenina italiana ousou fazer o que todo mundo queria, mas não fez. Em 2008, para citar uma de suas proezas, Sozzane lançou “uma edição especial apenas com modelos negras na capa e no recheio, batizada de ‘Black Issue’. A publicação trouxe modelos como Tyra Banks, Liya Kebede, Sesselee Lopez, Jourdan Dum e Naomi Campbell, além da ex-primeira dama, Michelle Obama e o diretor Spike Lee, também buscou refletir sobre a importância da diversidade na moda. O impacto foi enorme. A edição foi a mais vendida da revista e demandou duas reedições aumentando em 30% a receita” (Via www.escolasaopaulo.org). Para quem quiser adquirir um exemplar hoje, a Ebay vende por 2.500 dólares.

Um exemplo que não foge ao tema é o filme Green Book – O Guia (2018), uma história real sobre um pianista africano, Don Shirley que se arrisca numa turnê pelo sul dos Estados Unidos, no início dos anos 60 e sofre todo o tipo de preconceito e racismo ao longo da viagem. Seu fiel motorista, um descendente de italianos, já confuso e indignado com as situações mais humilhantes pelas quais o pianista passava, questiona aos músicos da banda: por que um artista tão bem sucedido sai do conforto de seu apartamento, em Nova Iorque para seguir o roteiro de viagem do Livro Verde e hospedar se separadamente dos brancos, sofrendo preconceitos dos maiores conservadores estadunidenses. Os músicos se entre olham e um deles responde: “Porque é preciso coragem para tocar o coração das pessoas”.

Acrescento à tirinha do criador da “Turma da Mônica” mais um pequeno detalhe, a função do artista é ter coragem de sair de sua zona de conforto para mudar mundo. Que os artistas de verdade possam sair por aí através de campos gramados, ruas, desertos, mares, ares e tocar o mais profundo possível o coração das pessoas. Ilustra o texto mais uma Mulher Maravilha do inquietante Pitágoras. Esta, porém é uma rara versão da personagem pelas mãos do artista goiano. Ela é negra!

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Mulher Maravilha, Pitágoras, 2019