Yellow World

Quem já foi mãe de primeira viagem se recordará dos constantes alertas dos pediatras para dar banho de sol no bebê recém-nascido. A falta dele pode causar a icterícia que é uma pigmentação amarelada por níveis elevados de bilirrubina no sangue.

Quem conhece São Paulo, a cidade da garoa, a cidade cinza, a selva de pedra brasileira, já notou a irrelevância do Sol na vida dos cidadãos paulistanos. A urgência do trabalho, os arranhas céus, o mergulho em escritórios fechados, a cólera pelo dinheiro e o empreendedorismo como referência mundial.

Não à toa que a maior dupla de artistas brasileiros, OsGêmeos tem como principal característica de seus grafites os homenzinhos amarelos. Personagens inventados para representar um núcleo de habitantes (ou quem sabe, todos nós), que de uma forma ou de outra somos obrigados a nos afastar da luz do Sol por motivos corriqueiros, por falta de tempo, por indução, por colonização. A dupla acaba de abrir a mostra “Segredos”, na Pinacoteca de São Paulo, uma panorâmica criativa da trajetória dos dois irmãos, com obras inéditas sobre uma carreira colorida e cheia mistérios.

A banda O Rappa também fez uma canção ao homem amarelo, no estilo carioca:

O Homem Amarelo do Samba do Morro
O Hip Hop do Santa Marta
Agarraram o louro na descida da ladeira
Malandro da baixada em terra estrangeira

A salsa cubana do negro oriental
Já é ouvida na central

Que pega o buzum
Que fala outra língua
Reencontra subúrbios e esquinas”

Quem nunca ouviu o termo “oh, seu amarelo”, numa forma pejorativa para designar aquele que não é nem branco, nem negro, nem índio, ou seja, um vira-lata! A burocracia inventou um termo mais sutil para cadastrar este novo tipo de “raça”, os pardos!

Definir em termos e conceitos o que cada artista pretende com sua arte é desvendar seus segredos e mistérios. É tentar enxergar a origem de suas sombras e sua luz. Cada artista guarda para si e consigo uma solidão criativa, aquela que, “sem querer querendo” faz parte do inconsciente coletivo. Ali, na intuição, na produção e na execução o artista materializa o que está incubado nas profundezas do ser, na dor, na realidade, na verdade! A trajetória do artista goiano, Siron Franco não é diferente.

Quem nunca ouviu sobre as traumatizantes histórias vividas pelo artista em sua infância, quando presenciou uma família inteira ser degolada por assassinos na mesma rua onde foi encontrado o Césio 137. Uma atmosfera amarela, quase sofrendo de icterícia, sedenta pela luz do Sol. São monstros, seres híbridos, couros e sangue de animais, números de calibres de armas, mulheres madonas, ou quase trans. Um mundo envolto de criatividade underground, mas extremamente bem executada, com técnica e referências de grandes mestres da subjetividade, como Francis Bacon, Picasso e Ana Maria Pacheco. Um mestre da pintura!

Quem nunca vivenciou o mundo amarelo?