Viagem do tempo

Aproveitando o ensejo do último texto sobre o tempo, rememoro a mostra “Blue” do artista goiano, atualmente radicado em NY, Gustavo Rizério, de 2009. A tela “Viagem do tempo”, a última em grande formato da série ainda em nosso acervo conta uma história peculiar sobre as técnicas e percepções do artista à respeito dos homens, o meio em que vivem, suas experiências e suas histórias. Rizério passou algumas temporadas vivendo no exterior antes de se mudar de mala e cuia para a terra do Tio Sam. Entre frios nórdicos e viagens à países sul americanos, o artista encheu sua bagagem de conhecimento cultural e pontos de vistas a respeito do mundo, do ser humano e de sua profissão. Com uma habilidade incontestável da técnica da pintura à óleo, o artista desafia o abstracionismo, o figurativismo, a arte óptica e clássica.

Em Nova Iorque, se engajou na tatuagem, que é sua eterna paixão e ganha pão, mas reserva tempo para sua grande amante, a pintura. No Brooklyn, entre um inverno rigoroso e um verão na quarentena ele adaptou sua residência para ostentar um atelier que muito novaiorquino sonharia em ter. O talento e austeridade no trabalho confirmam que Rizério é um artista nato. Apesar de um gênio hostil e diagnosticado com TDAH (Transtorno Défit de Atenção e Hiperatividade) ainda jovem, ele consegue canalizar suas expectativas em formas, cores e movimentos pictóricos, utilizando a arte como terapia, calmaria e auto-conhecimento.

Na obra, “Viagem do Tempo: eu quis representar a passagem do tempo. Como uma viagem do tempo. Algo que revela a vida vivida, a experiência. A própria existência sendo uma viagem e a vida como destino”. Ludmila Potrich que promoveu e divulgou o trabalho do artista no mercado goiano relata: “as figuras ele se inspirou num livro de cenas inglesas, eles são da guarda real em momento de descontração, para quem acha que os soldadinhos são imóveis ou estátuas, eles também tem sentimentos”.

O tempo é escancarado no excesso de rugas, na repetição contínua da imagem invertida, de cabeça para baixo ou com um gorro. Rindo de felicidade ou de nervos, sabe se lá o que passa na cabeça de um soldado inglês, a verdade é que o tempo passa e passa para todos. Viver não é tempo perdido, é uma viagem sem volta, um riso sem arrependimento, uma lágrima com sentimento. Se viajar no tempo fosse possível eu não mudaria nada! E vocês? Viver é desenhar sem borracha”. (Millôr Fernandes)

Gustavo Rizério, óleo sobre tela, 130 x 210 cm, 2009