Véio, cê tá certo!

Uma coisa temos de tirar o chapéu, o ser humano realmente é um ser surpreendente. Quando a gente acha que o jogo tá perdido, vem um e faz o Gol no último minuto do segundo tempo. O ponto vencedor foi para a notícia dessa semana passada, sobre a iniciativa de moradores de um bairro de Teresina (PI) em pintarem os muros da rua onde moram das cores de nosso arque inimigo, a Argentina em protesto à política do pão e circo e da “Suja Jato”. A Copa do Mundo é um momento ideal para a quadrilha política do país se reorganizar e votar todas as regalias a seu favor, cujo desvio da atenção de torcedores apaixonados é sempre providencial em situações de tensão popular. Este ato de protesto Nordestino foi, em minha opinião, uma intervenção artística, um ato social com uma postura patriótica um tanto sarcástica, mas num momento bem apropriado. O curioso que nessa mesma semana que passou foi comemorado pelas cidadãs argentinas e aprovado pela Câmara dos Deputados desse país a lei que permite a interrupção da gravidez por decisão da mulher. Assunto polêmico, tabu ou transgressor é fato que vários países desenvolvidos e em desenvolvimento já aderiram à descriminalização do aborto. Outro fato divulgado essa semana que passou foi o “mimimi” em relação à seleção campeã mundial de futebol, a Alemanha que viajou em classe econômica para Rússia. Ora, alguns irão defender que a distância do Brasil à Rússia é muito maior e em se tratando da seleção pentacampeã mundial, eles merecem o conforto da primeira classe. Será? A verdade é que alguns brasileiros são deslumbrados por natureza, a ostentação é cultural nestes “emergentes” da nossa sociedade. No entanto não podemos negar que somos um povo muito criativo e conseguimos improvisar diante de situações inusitadas.

Um exemplo disso são as obras do artista sergipense, Véio, que ganhou importante mostra este ano, no mês de Março e tem um reconhecido trabalho com troncos de árvores secas que ganham vida em suas mãos. Cícero Alves dos Santos, que assim foi apelidado porque sempre estava na companhia de pessoas mais velhas. Véio nos surpreende quando recolhe da natureza troncos e os transforma em animais, humanos e demônios apenas com o uso de tinta em determinadas partes dos galhos. Parece simples e é, mas Véio acreditou na simplicidade e deu certo! O artista tem merecido destaque no circuito e textos publicados por grandes curadores. Se você ou seu filho dariam conta de fazer a mesma coisa eu não tenho dúvidas, mas a repetição, o amor e o vício do artista pelo seu ofício fazem de sua produção uma relíquia, um tesouro, um conhecimento empírico que só quem conseguiu passar dessa fase “emergente” conseguiria entender e valorizar. Certamente, um pedaço de pau não nos diria muita coisa, mas o conjunto deles contaria a história de vida, de lendas e de saberes que só um Nordestino saberia contar. Engajado na cultura popular brasileira, Véio, em entrevista para o Estadão analisa: “O sertão é praticamente esquecido, só é lembrado em período de eleições”.

Tomara que tomemos consciência e lembremos que o Nordestino é surpreendente e tem de ter voz ativa. Tudo é possível acontecer quando se acredita num ideal justo e por mérito concebido.

Que vença o melhor, mas que vença honestamente! Vai, Brasil!

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Véio – A Imaginação da Madeira, Itaú Cultural (foto André Seiti)