Valente

Meu primeiro contato visual com a mitologia yorubá foi através das fotografias do francês Pierre Verger (1902 -1996), que viajou por vários países da África expandindo o seu conhecimento, registrando a cultura africana e seus vários desdobramentos e ainda mais, quando desembarcou  no Brasil. As vestimentas, os assessórios e as ferramentas de cada orixá estampando as fotos preto e branco do francês são certificados de sua formação como etnólogo e também importante hierarquia do Candomblé intitulado como Fatumbi, o sacerdote de Ifá. A curiosidade do tema me despertou a partir daquelas impactantes imagens que a priori tem um ar primitivo, teatral e exótico, mas intimamente nos soa algo muito familiar.

A história da mitologia yorubá está intrínseca à Natureza e os seus fenômenos. Os orixás, os deuses africanos são entidades providas de escudos protetores, lanças, instrumentos mágicos, simbologias místicas e rituais litúrgicos que transformam as cerimônias em verdadeiras festas religiosas, cheia de dança e música que ecoa da tríade de atabaques.

Um artista muitíssimo cotado no mercado atualmente, que deixou uma preciosa produção artística sobre esta manifestação africana foi o baiano Rubem Valentim (1922-1991). Valentim foi um dos percursores da renovação das artes plásticas baiana, num momento onde se firmava a identidade mestiça da nação abraçando sempre a matriz africana. Embora a marginalização das diversas manifestações afrodescendentes ocorresse pela constante repressão da burguesia brasileira, artistas como o argentino, Carybé, os baianos Rubem Valentim, Carlos Bastos e Mário Cravo Júnior apostaram na pesquisa da cultura africana com lealdade e compromisso. Valentim também foi um sacerdote de ifá, isto é um valente vidente, sábio porta-voz do destino da cultura, um legítimo artista do saber. Todo seu trabalho é baseado na geometria dos elementos do candomblé, as lanças, as armas, as proteções, os escudos, os patuás. Valentim aliou a religiosidade à Arte com maestria e coerência. Trabalhou com ardor na pesquisa de composição das cores, que também é destaque e preferência de cada orixá. Sintetizou uma linguagem única e inconfundível em sua obra. Soube valorizar o patrimônio mais precioso que temos: as nossas raízes. A África ainda é o berço da Humanidade (até que o Criacionismo prove o contrário). Lá nasceu a Mama que atravessou o continente e deixou seus restos em terras americanas, onde até pouco tempo o crânio de Luzia, com mais de 11 mil anos se encontrava exposto, no finado Museu Nacional. Reconhecer nossa origem e saber valorizá-la é para valentes como o baiano Rubem Valentim.

No início do mês foi inaugurada a mostra “Rubem Valentim – Construção e Fé”, com curadoria de Marcus Lontra, na Caixa Cultural de São Paulo. Vale a visita! Finalizo o texto com a imagem do nosso cartão virtual de felicitações de Ano Novo 2018, com obra da série “Emblema” 89/90. Axé! Saravá! Paranauê, camará! Link para ver a mostra: “Construção e Fé”

2018