Tudo sobre minha mãe

Pensei um tantão antes de escrever sobre minha mãe, creio ser uma grande responsabilidade para alguém com um olhar tão parcial como o meu, mas vamos lá:

A primeira imagem dela que me vem à cabeça é sua beleza física. Sempre constatei em nossos registros fotográficos ela se escondendo de alguma forma, ou com as mãos no rosto, ou num balancear do cabelo e do corpo o que causaria um embaço na foto, ou ainda com seus inseparáveis óculos escuros. Ela leva à sério mesmo a crença de que “a fotografia captura a alma das pessoas”. Seu sorriso, seu olhar expressivo avivado por suas delineadas sobrancelhas, seu nariz afinado, sua vasta cabeleira, sua altura, sua cintura, seus gestos simples e femininos. A bela que insiste em se esconder por trás de bem feitas mãos e compridas unhas. Não fosse só por esta suposta modéstia, ela teve a virtude de ser uma pré-adolescente com um pseudo défit de atenção, o que a fez se destacar na criatividade e empreendedorismo entre suas colegas de Lyceu. Também foi uma filha “tinhosa” no seio familiar, dado seu tempestuoso inconformismo construtivo, o que culminaria mais tarde, em particular, o gosto pela construção civil. Teve uma infância enriquecida de conhecimentos culturais e relações férteis, desde ser vizinha do então Governador Otávio Lage até ser apresentada formalmente e ainda jovem à Frei Confaloni.

Mamãe se casou com o gaúcho Amilto Potrich, na Catedral goiana, onde fora oficializado simultaneamente e comemorado com grande estilo, no Hotel Umuarama, as bodas de prata de seus pais. Concebeu duas filhas Ludmila e Tatiana, nomes de personagens do livro do escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) um russo idealista que transformou culturalmente toda uma geração. Após a maternidade, mamãe decide enfim sua carreira profissional. Por instinto, destino ou talento ela investe nas Artes Plásticas da década de 80, onde a renovação da pintura ganhara força com o pós-ditadura e as Diretas Já. A partir daí se inicia uma jornada inédita. Ela provê e promove a arte nos quatro cantos do país. Representa artistas goianos num patamar nacional inaugurando sua Galeria com a mostra individual de Roosevelt, o Roos e incluindo no acervo obras de um artista já com destaque significativo no circuito, Siron Franco.

Mamãe nos deu o privilégio de conhecer ainda muito cedo a Bienal Internacional de São Paulo, em 1985. Uma das mais marcantes experiências que pudemos presenciar foi a obra do artista Alex Vallauri, “A Rainha do Frango Assado”, um misto de grafite, instalação e interatividade. Ainda em terna idade fomos desvendar a história do país, em Brasília visitando os restos mortais de Juscelino Kubitschek, as engenhosas esculturas de Bruno Giorgi, os painéis de João Câmara, “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti e o conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Mamãe nos apresentou o significado de patrimônio e nos ensinou a respeitá-lo, mas principalmente a valorizá-lo. Foi através de seu ofício como galerista que o Estado de Minas Gerais entrou para sempre em nossas vidas. Ganhei uma segunda mãe, sua amiga, confidente e colega de profissão, a renomada galerista de Belo Horizonte, Leila Pace. Uma guia pelas serras mineiras e suas preciosidades culturais. Através dos tortuosos caminhos de Minas atravessamos serras e encontramos recanto caloroso em Ouro Preto, no casarão de artistas da Família Bracher; nos deparamos com a modernidade do atelier de Amílcar de Castro, em Nova Lima; nos aprofundamos na profundeza das minas de ouro, em Mariana; no charme de Tiradentes; na luz de Diamantina; nas esculturas sacras de Aleijadinho, em Congonhas e no instituto de arte contemporânea de Inhotim, em Brumadinho.

Ao sul, em Campo Grande fortalecemos os laços entre família-trabalho com sua cunhada e minha tia, a galerista Mara Dolzan. Retornamos à Sampa inúmeras vezes para desbravar suas garoas e as artimanhas do mercado de arte com outra galerista, a paulistana Regina Boni. No litoral brasileiro, nos afeiçoamos pela audaciosa produção pernambucana esculpida pelas mãos e administração da tradicional Família Brennand.

Mais um privilégio que pudemos vivenciar através de suas nobres relações, do trabalho e não do axé, afoxé e carnaval, foi conhecer a primeira capital do Brasil, Salvador, a ‘mainha’ dos Filhos de Gandhi. Lá ela realizou negócios com grandes galeristas baianos, Roberto Alban e Paulo Darzé em meio à beira mar, com todo aquele cheiro de peixe, que ela nunca degustou, mas tolerou seu odor por causa da graça, “do jeito e do defeito” (Gilberto Gil), que só a baianidade pode ter.

Hoje mamãe tem um refúgio certo, para divagar, no sul da Bahia. Pode até parecer contrastante a Marina não gostar de comer frutos do mar, mas é lá, no mar, onde ela quer estar. Num lugar que se sinta brasileira, humana, mãe e avó. Ali, ela aprendeu e me mostrou como ser livre, ter amor próprio e amar a Natureza! Obrigada, mainha! Obrigada, Marina! Te amo! Saravá!

P.S.: O título é referência do filme, que se tornou um cult, do diretor espanhol, Pedro Almodóvar. Um filme sobre mães, seus prazeres e suas dores!

Um texto de domingo antecipado ao Dia das Mães para homenagear as mães presentes, aquelas que já se foram, aquelas que ficaram, mas se foram os seus filhos e aquelas que ainda se tornarão Mães! Excepcionalmente, não escreverei no próximo domingo, afinal sou mãe mereço uma folga (também sou filha de Deus, né)! Feliz Dia das Mães!!!

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Retrato de Marina Potrich pelo artista goiano, Roos, em 1980