Trópicos

O livro “1808”, de Laurentino Gomes foi escrito em 2014.

O Museu Nacional do Rio de Janeiro pegou fogo em 2018.

Com um intervalo de 4 anos, o escritor, que tem formação em jornalismo registra uma interessante passagem no livro, a respeito desta instituição:

Situado na Quinta da Boa Vista, a algumas centenas de metros do Estádio do Maracanã, com vista para o morro da Mangueira, este é um dos museus mais estranhos do Brasil. Seu acervo reúne, além do meteorito, aves e animais empalhados e vestimentas de tribos indígenas abrigadas em caixas de vidro que lembram vitrine de lojas das cidades do interior. As peças estão atribuídas ao acaso, sem critério de organização ou identificação (…) A construção retangular de três andares, que Dom João ganhou de presente de um traficante de escravos ao chegar ao Brasil, em 1808, é hoje um prédio descuidado e sem memória (…) É como se nesse local a história tivesse sido apagada de propósito”.

O escritor, como se diz na gíria, “já tinha cantado a bola” de que tudo estava mesmo perdido. O incêndio que devastou a pouca e desorganizada memória que restara no museu veio fazer ‘um limpa’ da bagunça iniciada desde 1500. Como de praxe do brasileiro ou de qualquer ser humano do mundo, o apagar da memória é o típico ato falho, uma grande pegadinha que nosso inconsciente faz para quê, de certa forma, estejamos protegidos de nós mesmos, ou nos boicotemos.

No livro de Lévis-Strauss, “Tristes Trópicos” o antropólogo traz a ideia da superstição como persistência ancestral e senso de coletividade. O boicote, a superstição podem ser um estilo de vida humano mesmo, tipo um estilo masoquista, de dor e medo. Construímos as coisas, para depois podermos destruí-las, ora pois. Li recentemente um artigo sobre comportamento contemporâneo, numa dessas revistas científicas, que insistia em afirmar que gostamos de viver com sadismo, escravizando uns aos outros, consumindo coisas que não usaremos, comendo e bebendo coisas que não nos farão bem, etc.

E não venham me dizer que essas falhas são para nossa sobrevivência. Quem sobreviviam, de fato, eram os índios. Selvagens, pelados no frio da mata, caçando com arco e flechas feras perigosas, ou plantando e colhendo a mandioca na terra virgem e fértil. Da pouca memória que resta sobre estes nossos ancestrais são as superstições e não, os bons hábitos de ingerir ervas medicinais e uma alimentação mais pura e limpa, que permanece no nosso inconsciente.

Falta pouco para terminarmos de apagar essa memoriazinha que ainda, talvez insista em nos conscientizar de fazermos o bem para nós mesmos. É uma suave fagulha que espera ser alimentada pela força da sapiência ou da ignorância, você decide! Um incêndio, ou uma queimada é um sopro de cinzas num mar de memórias secas e abandonadas. Talvez seja a hora de resgatarmos memórias ancestrais que ascendam chamas de conhecimento, soluções e consciência coletiva, porque não estamos mais sobrevivendo, mas ‘sub-vivendo’ em nossos próprios egos!

Ilustra o texto a obra, “Trópico”, de Fábio Pedrosa, alagoano que reside em Brasília, um dos 5 selecionados do nosso Edital 2020. Agende sua visita!