ton sur ton

Histórias acerca do artista paulista, Eduardo Srur contam que uma de suas extravagantes ideias era a de reunir um montante de milhares de ratos e soltá-los no horário de rush no metrô de São Paulo. O Ministério da Saúde teria barrado o projeto, pois isso poderia causar um surto de pânico nos passageiros.  O artista alegaria a favor de seu projeto a justificativa de que só porque não vemos os ratos, não significa que eles não existam naquele local. A obra foi concretizada no objeto interventivo “Farol”, em 2013, que foi instalado no centro histórico da Capital e é composta de material metálico, madeira, acrílico, 20 mil ratos de plástico e graxa.  Srur tem sua pesquisa calcada nos problemas ambientais de sua cidade, cuja poluição é o principal foco de seu trabalho. Num levantamento estatístico da época, o número de ratos ultrapassaria a marca de 170 milhões, uma média de 15 ratos por habitante. A escolha pelo local da instalação da obra também foi proposital, o Vale do Anhangabaú, significa em tupi-guarani “rio dos malefícios do diabo”, onde os índios acreditavam que suas águas provocavam doenças físicas e mentais. O nome da obra nos direciona a reflexão sob a luz da filosofia e as leis herméticas: “tudo que está em cima é como o que está embaixo”. A super população de ratos é consequência do descuido do sistema e dos cidadãos com o meio ambiente. Comemos, procriamos e sujamos tal qual ou mais ainda que os ratos. Tornamos agradável, aparentemente os lugares que frequentamos, mas pisamos sob o chão de uma infinita galeria de esgotos existente no subterrâneo das metrópoles.

O poético vídeo da atriz Vera Holtz, “Camundongos”, postado recentemente no seu Instagram, sublima a coexistência vital entre os seres, mas nos incomoda com a presença de inúmeros camundongos em movimento tocando seus braços. Num abraço terno da atriz que os observa com delicadeza, pena e zelo, a proposta ganha harmonia, estética e leveza, quando observada racionalmente. Vera Holtz tem uma poética visual única, autentica e interligada com sua profissão. Ela atua em seus vídeos como uma performance encarnando o personagem do tema de sua obra. Ela está atenta ao momento e demonstra a cada publicação seu compromisso com a Arte, com a sociedade e seus princípios. A ideia dos camundongos foi proposital ao momento atual que, embora parece repulsivo à primeira vista por impulso emocional, é suave num ton sur ton do cenário, com o tampo de mármore da mesa, a cor branca dos ratos e dos longos cabelos da atriz.

Estamos todos conectados mesmo que nos repulsando, discordando, odiando. Somos uma unidade, uma sociedade organizada que produz, reproduz, cria e procria. O excesso ou escassez desse processo vital é o que desequilibra o sistema. Quem nos diz isso primeiro são os artistas e depois as estatísticas. O protesto-arte de Holtz e Srur são provas disso, assim como também já cantou nosso poeta Cazuza em “O tempo não pára”. E que a Arte siga cantando, pintando e mostrando o quanto a vida pode ser grande em cima ou em baixo, ton sur ton na medida certa!