Testemunho

Há tempos investigo o “porque” de minha duradoura paixão pela Capoeira e os intermináveis caminhos que me conduziram à algumas investigações sobre a história cultural do Brasil. Um deles, que é a hipótese mais próxima de minha longa relação com a luta de libertação, acredito ter sido por causa do período da imigração italiana ao nosso país, que se deu entre 1870 à 1960. Dentre alguns dos motivos desta transição migratória estariam fugitivos das guerras mundiais e a nova mão-de-obra que substituiria os escravos africanos após a abolição de 1888.

“Nem sempre a substituição do trabalho do negro pelo italiano se fez facilmente, mesmo tratando se de fazendas principalmente de café, pequenas ou médias, em terra de clima doce”. (depoimento de Cássio Barbosa apud FREYRE, Gilberto – Ordem e Progresso, 2003)

“Foi precisamente a presença de um elemento europeu assim crescentemente próspero, sempre dinâmico, plástico e progressivo, que permitiu à São Paulo, até certo ponto e ao Rio Grande do Sul, juntar ao progresso agrário, o industrial” (…) (Sobre os italianos Notas de Referência Capitulo VIII, pág. 709, apud FREYRE).

Freyre ainda lembra que as primeiras óperas apresentadas no Teatro Amazonas, em Manaus foram regidas pelo maestro Nicolino Milano e as tragédias de Shakespeare, interpretadas pelo também italiano, Giovanni Emanuel na virada do século XX. Grandes nomes da arte brasileira foram italianos ou descendentes deles como os modernistas, Cândido Portinari e Anita Malfatti, os italianos Bruno Giorgi e Alfredo Ceschiatti, internacionalmente reconhecidos pelo conjunto de obras em Brasília, a arquiteta Lina Bo Bardi responsável pelo icônico  projeto do MASP e Alfredo Volpi, que representou o regionalismo das festividades brasileiras, no estilo construtivista.

Em 1950, recebemos um importante imigrante, pioneiro das artes plásticas de Goiás. Frei Nazareno Confaloni (1917-1977) traduziu através de sua rasa paleta de cores, os tempos sombrios da ditadura militar. Com suas pinturas mórbidas abordou a via crucis e retratou enfadonhas madonas monocromáticas. Mais coloridos foram alguns de seus Cristos na cruz, ou o santo dos pobres, São Francisco, onde revisita os movimentos impressionista e cubista numa versão mais tupiniquim. Talvez sua maior e melhor obra, em minha opinião, esteja na edificação da antiga Estação Ferroviária de Goiânia, atualmente Estação Cultura. Por divergir do tema religioso e destacar a figura do trabalhador no seu ofício teria sido este o maior motivo de minha comoção. O painel medindo 470 x 810 cm com motivo da construção do trilho de ferro retrata os trabalhadores, em sua maioria negros e pardos, carregando dormentes de madeira e vigas de ferro. Ali, observando aquela majestosa imagem, aquele quase afresco, num quase templo da Arte: “meninos, eu vi”. Tive uma visão e dou este testemunho a vocês.

Ao me sentir iluminada e comovida vivenciando mais uma experiência com a Arte retomo sempre à minha infância e de súbito tenho vontade de dançar, tenho vontade de gingar numa roda, cantar e experimentar a sensação de ser livre e feliz. Como uma boa descendente de italianos e outras misturinhas mais, o gosto pelo lavoro e pela cultura sempre farão parte da minha hereditariedade europeia, assim como um bom batuque e a roda animada regida por músicos experientes misturados ao dendê do swingue brasileiro.

Esse foi o meu testemunho na presença da Arte, porque eu li, compreendi, observei, senti e ginguei! E você? Comente um testemunho sobre sua experiência com a Arte para eu compartilhar aqui no Blog com os outros leitores. Que tal!?

confaloni

Painel na Estação Cultura do artista italiano, Frei Nazareno Confaloni, 1953.

Acervo de obras em exposição permanente.