Tempos Distópicos

No século XVIII o livro célebre do escritor alemão Goethe, “Os sofrimentos do Jovem Werther” (1774) viria influenciar e manifestar o suicídio em série entre jovens que acabariam de vivenciar o surgimento do Iluminismo na sociedade, período onde este surto coletivo levaria o mesmo nome, Síndrome de Werther. O best-seller vingaria a sina de sua história à uma parte dessa geração que morreria por amor ou por qualquer outro motivo de desequilíbrio emocional. A Literatura sempre teve um impacto direto com a sociedade, principalmente quando o único meio de comunicação era a leitura.

Dois séculos depois, o livro do inglês Anthony Burgess cairia nas graças do diretor norte-americano, Stanley Kubrick para a produção do clássico antiutópico, “Laranja Mecânica” (Clockwork Orange). O livro disserta sobre a psicopatia coletiva, a violência, o sexo, as drogas e intervenção de métodos científicos controladores. Embora a comoção do público sobre o filme e, consequentemente sobre o livro tenha sido bastante repulsiva, algumas partes da história foram inspiradas em fatos reais, como o estupro coletivo. O caso sobre quatro soldados americanos, na II Guerra Mundial, que violentaram uma mulher casada, que também teve de submeter  à um aborto, é verídico. O impacto do filme “Laranja Mecânica” foi tão grande que casos semelhantes de violência se refletiram na sociedade ao ponto do escritor repudiar o próprio livro.

Se a aparição do personagem do Coringa não tivesse acontecido na década de 40, eu diria que ele seria o alter-ego na versão nórdica do personagem principal do livro inglês, o Alex (A-lex, a-lux, o sem luz). O poeta inglês, Philip Larkin assim descreveu o escritor conterrâneo:

“[Anthony Burgess] deve ser uma espécie de Batman das letras contemporâneas”.

De fato, o poder que a Literatura e as Artes em geral exercem na sociedade é imediato e cíclico. Como cada cultura vive sua realidade particular é compreensível que o norte-americano tenha sua versão orange, oranga, ou ‘orangotanga’ da história, quem sabe até mais ácida, brutal e bestial que as outras. Repensar estereótipos norte-americanos como “Jason Voorhess”, “Freddy Kruger” e “It – A Coisa” nos remete ao possível terror de atitudes semi-humanas.

A relação “Laranja Mecânica” (1972) X “Coringa” (2019) implica mais sobre o comportamento contemporâneo que suas semelhanças psicóticas. Meio século separam dois cult’s do cinema e nos deparamos ainda com o reflexo de uma realidade descontrolada, distópica ou até pior. Por que, afinal tanto interesse do público em temas de terror e suspense? Por que ainda é tão atraente esta “síndrome de cluster”, o “efeito manada”, essa onda contagiosa de violência? A vida imita a Arte, ou a Arte imita a vida?

Fica a dica de dois clássicos para assistir e refletir sobre a sociedade contemporânea. O desenho em técnica mista do artista goiano Pitágoras ilustra o post.

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Pitágoras, técnica mista sobre papel, 2018