Tempo

O mês de Abril este ano faz jus ao nome. Abril abriu com mostras do circuito “Histórias das mulheres, Histórias feministas” das gigantes da arte e da arquitetura brasileira: Tarsila do Amaral e Lina Bo Bardi, no MASP, a Feira de Arte Internacional: a SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera, o itinerante Festival Lollapalooza, também em Sampa e o Salão de Móvel de Milão, na Itália, só pra citar o que abriu o mês e termina nesta semana. Mas nunca termina! Tem sempre um outro evento, atividade e muita, muita informação, o tempo todo! Todo tempo!

Somos bombardeados com imagens, fake news, fakebooks, fetiches e fantasias 24 horas por dia, não tem como relaxar. Só desligando o celular, ou o computador, ou a televisão. Foi sob esta angústia temporal que indaguei minha amada vovozinha, no seu aniversário de 93 anos, em Junho do ano passado, data de nosso último encontro, em Campo Grande, MS, quando seu falecimento se daria dois meses depois. Sou eternamente grata pela oportunidade de ter me despedido da querida nonna Potrich e ter sentido pela última vez o calor de seu abraço! Por sorte ou destino ela me tirou ou terminou de colocar um peso em minha consciência, afinal por que viemos ao mundo, qual o sentido de tudo isso? Vovó nunca foi de muitos estudos, seu aprendizado foi com a vida, com o trabalho doméstico, as delícias de dançar, as tristezas do coração, as dores e as belezas em ser mulher.  Uma pequena grande sábia, pois sua maior virtude sempre foi a Mãe de todas: a Paciência. Ela me olhou docemente, apertou minha mão e disse: “Sabe, Tatiana, no meu tempo não tinha tanto que querer ou fazer, a mulher tinha de cuidar da casa, dos filhos, do marido e já era muita ‘coisa’. A gente era feliz assim, com a alegria em família, a saúde dos filhos, a vida com simplicidade. Tudo é muito diferente hoje. As mulheres trabalham como empresárias, tomam anticoncepcional, se responsabilizam por muitas ‘coisas’ além da família. Eu acho que deva ser mais difícil. Eu não gostaria de viver nesse tempo. Compreendo a sua ansiedade e seu medo, é bem complicado mesmo. Mas sabe, eu aprendi que devemos esperar o que o dia tem a nos oferecer e ser grata por isso. Não adianta correr atrás do tempo perdido, é ele quem deve vir à nós e, à nós, nos resta apenas agradecer este precioso tempo para desfrutar a vida!”

O tempo, o dono de todas as ‘coisas’. Sua fala me remeteu ao filme vencedor do Oscar Estrangeiro, o mexicano “Roma” (2019). A crítica bate na tecla que é um filme bem chato, mas pensando bem, a vida de duas personagens completamente diferentes, embora mulheres, morando num bairro de classe média no México, na década de 1970, deva ser bem chata mesmo, porém irritantemente realista. O incômodo do espectador é na falta de ação, o desencanto constante dos desfechos, a vida insignificante dessas duas mulheres. Mas há beleza! Há muita Arte no filme, há amor e há uma realidade quase mortífera dos trágicos acontecimentos cotidianos. O recado do filme é importante no que diz respeito à vida com simplicidade e desapego. Ela é finda e nada é para sempre e somos obrigados a conviver com essa verdade diariamente. Daí mais um recado de outro filme, um cult francês que rompe com os padrões de ficção documental, “Lucy” (2014), onde a personagem principal confessa : “A única unidade de medida que existe no mundo é o Tempo”. Cuidemos dele, com cautela, zelo e amor!

Ilustra o post obra do artista goiano e exímio tatuador no Brooklin, em Nova Iorque, Gustavo Rizério, “1° Ato” (2010). O óleo sobre tela remete à uma mulher e cantora de ópera, porque “sem a música a vida seria um erro” (Nietzsche). Predominam na tela as cores: vermelho, como o sangue da vida e o dourado, como ouro da sabedoria.

O tempo é o Senhor da verdade e ele é o dono da eternidade!!!

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