Supérfluo

Um expressivo filósofo francês do século XVIII, Voltaire se destacou com pensamentos iluministas, um deles que diz assim: “O supérfluo é uma coisa extremamente necessária”. Um século depois o poeta inglês, Oscar Wilde o confirmaria: “Deem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter”. O psicanalista pernambucano, Jurandir Freire Costa estuda sobre o supérfluo antes e depois do Iluminismo levando em conta as mudanças comportamentais dadas transformações de sistemas econômicos, desdobramentos éticos e religiosos. A partir de estudos baseados em teorias do sociólogo americano, Colin Campbell, o psicanalista analisa uma mudança crucial na sociedade, a postura do ‘comprador’ para a do ‘consumidor’. O ‘comprador’ ou ‘compradora’ teriam como princípios reforçar o apreço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família. Jurandir ressalta: “O supérfluo tinha uma função cultural completamente diversa do supérfluo de hoje”. Hoje, nem tantos são ‘compradores’, mas ‘consumidores’. O pernambucano prossegue: “A própria indústria torna os objetos obsoletos. O consumo de bens e sexo tornou-se um imperativo para que possamos ser felizes e reconhecidos pelo outro. O fetiche pelo dinheiro, no sentido de Marx e o fetiche pelo sexo, no sentido de Freud”.

Mas por que não conseguimos consumir o supérfluo como alguns sensatos compradores? A mídia, a religião, a política, o capitalismo, a moda, o imediatismo… Daria para citar páginas inteiras de motivos que nos distanciam do verdadeiro sentido do supérfluo necessário. Ora, se nas redes sociais nos deparamos com milhões de perfis que nos oferecem o mesmo produto, o mesmo prazer e a mesma viagem. Como nos sentirmos diferenciado diante de tantas opções iguais? Se o necessário é para todos, nos tornamos diferentes quando achamos o supérfluo que se encaixa em nossa personalidade. A Arte é um supérfluo necessário por causa disso. Você pode ter uma cadeira para sentar, uma cama para dormir, uma mesa para trabalhar, comer e estudar. São objetos necessários. Eles são úteis. A Arte não é! Recordem se do artigo passado: “A Arte é inútil”. É ela quem almeja os princípios ‘daquele comprador’ (reforçar o pareço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família).

A escolha da Arte para si é o supérfluo necessário para nos sentirmos únicos, diferentes e especiais. A História da Arte comprova isso em números. A maior cifra já cadastrada de uma obra de arte foi de 450 milhões de libras (“Salvator Mundi“, Leonardo da Vinci). Você já encontrou algum artefato que chegou a este valor? Ano passado, um milhão de dólares foram pagos por uma obra de arte contemporânea, que ao ser arrematada foi triturada imediatamente num happening transgressor realizado pelo artista (“Girl with Balloon“, Bansky). Quem encrustaria mais de 8 mil brilhantes numa caveira que não fosse para ser usada como joia e conseguiria vende-la por 75 milhões de euros (“For the Love of God“, Damien Hirst)? Ou ainda, comprado pelo MoMa, NY a obra da brasileira, Tarsila do Amaral, “A Lua” por 74 milhões de reais. A Arte consegue ser tão surpreendente quanto supérflua para perdurar ao longo da História da Humanidade, não acham!?

Se você for levado a consumir por impulso pelos links de venda online (Polishop, Mecado Livre, iBooking, iFood, Rappi, etc) seja um consumidor consciente. Observe, reflita e perceba que o supérfluo é tão importante quanto o necessário quando atinge princípios que aprimorem o nosso ser, os nossos sentidos, nossos sentimentos! Se deixar levar pelo capricho, fetiche ou prazer pode custar caro. Investir na saúde mental avaliando os estudos e pesquisas de sensatos pensadores e artistas ainda é o melhor gasto de tempo e dinheiro. Pensemos, reflitamos e compremos com consciência! Acreditemos na Arte!

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Poltrona Beto, por Sérgio Rodrigues, acrílico s/ tela, por Pitágoras e escultura em ferro, por Franz Weissmann.

Fotografia: Alejandro Zenha