Solidão

No início deste ano a Netflix anunciou que transformará numa série o livro do colombiano e Prêmio Nobel em 1982, Gabriel García Márquez (1927-2014), a sua obra-prima “Cem anos de solidão” (1967). Os cinéfilos e ‘seriezeiro’ de plantão já estão ansiosos pela estreia, inclusive eu. Um dos livros mais vendidos da história narra a saga de uma família em meio a mistérios, catarses e uma forte narrativa socioeconômica sobre a América Latina. A literatura do estilo Realismo Fantástico do escritor foi uma reação à literatura mágica europeia dos anos 60 e 70, também uma maneira de se expressar contra os governos totalitários da época. Este estilo de literatura viria contagiar centenas de escritores latinos, inclusive um deles de Corumbá de Goiás, o goiano José J. Veiga. O estilo literário aborda situações inusitadas que prendem a atenção do leitor a mitifica a realidade estabelecendo uma relação entre o possível e o impossível.

“O amor nos tempos do cólera” (1985), outro clássico do escritor foi adaptado para o cinema em 2007 e traz surpreendentes passagens a começar pelo trocadilho do título. A comparação dos sintomas do cólera com as dores de um amor não correspondido é o mote central da trama romântica. O incorrigível apaixonado espera por este amor durante 51 anos até reencontrá-lo e consumir sua paixão. A mãe do protagonista no filme é interpretada pela atriz brasileira Fernanda Montenegro e a atmosfera caótica entre religiosidade, ‘edipianismo’ e o drama da epidemia do cólera na cidade litorânea é interrompido por momentos de doçura e sensibilidade como o conteúdo das cartas de um homem apaixonado ou na trilha sonora do filme cantada pela voz característica da também colombiana Shakira. O cenário de sua obra é inspirado na paisagem afrodisíaca de Cartagena, com seu clima tropical, sua beleza abençoada por natureza e sua posição estratégica entre América do Sul e Central. A cultura colombiana se expressa por hábitos regionalistas de uma sociedade colonizada por espanhóis e movida pela agropecuária e um intensivo tráfico de maconha e cocaína.

O Realismo Mágico de Gabriel García Márquez, representa bem esta realidade do país e deixa subliminar estereótipos de uma cultura movida pela prostituição e pelo comércio de produtos ilícitos. Essa realidade fantástica do século XX é mais expressiva e contrastante atualmente. Resgatar uma história escrita no final dos anos 60 para exibir num dos maiores programas especializados em séries televisivas do mundo é um sinal, um redirecionamento do olhar para a cultura verdadeira, a Arte que fala a verdade, mas que também sonha e cria a magia, transforma o olhar, investiga a origem das angustias, das dores, dos amores e da solidão!

Ilustra o texto obra do artista goiano Avi Neto, que permeia o Realismo Mágico com personagens femininas e paisagens fantásticas. O artista abre mostra de arte na Galeria este mês de setembro. Aguardem!

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Avi Neto, “The yellow boat“, acrílica s/ tela, 80 x 90 cm, 2018.