Sobre olhos e dentes

Essa semana que passou, me deparei com algo que ascendeu a chama da minha autocrítica e me colocou em “xeque” comigo mesmo. Críticos, curadores e jornalistas adoram uma polêmica que envolva seus próprios interesses e direcionem holofotes para suas vias de argumentos (nisso também me incluo, mea culpa). E os melhores caminhos para se atingir essas estratégias são as redes sociais que, quando não são por próprio punho redigidas, são por links compartilhados com uma sutil alfinetada do objeto crítico em questão.

Se acima escrevi: “a semana que passou” foi porque acabo de me tocar e ser tocada dos absurdos que cometemos em mostrar os dentes uns para os outros nas mídias virtuais. No meu caso e na minha área percebo que não importa o depoimento sobre a crítica, se é sobre aquela única obra daquele artista famoso que está no acervo do Museu X que será vendida para sanar as dívidas desta instituição, ou se a nova taxação, dos aeroportos privatizados, sobre as obras das Galerias de Arte que participam da Feira Y, ou ainda se a lavagem de dinheiro do mecenas Z e sua negociação em permutar obras de arte para estancar seu débito fiscal.

Cada instituição e entidade devem saber de si como proceder em todos os casos. Não há como se eximir dos encargos tributados, seja devida ou indevidamente. Acabamos por viver dentro de uma legislação que bem ou mal foi decretada para estabelecer a ordem. Se funciona ou não, se é perecível à corrupção ou não, felizmente o Tempo é amigo antigo da Justiça e ela nunca falha. Pelo menos em longo prazo. Assim são com os artistas, com os heróis, vilões, líderes, gurus e mártires da História da Humanidade.

Nós, críticos, temos o péssimo hábito de julgar, promover a difamação e compartilhar algo com segundas intenções ao invés de propor mais mudanças e incentivar novas ideias. Deparei-me com meu Rei em “mate”, tendo de assumir meu erro e deletar meu comentário. Um passo atrás, um recuo para o bom jogador que quer continuar no jogo. Assim segue a difícil relação social quando se divergem ideias e críticas. Mas tudo tem seu momento, tudo em sua hora, afinal o Tempo é amigo íntimo da Verdade. O que nos resta enquanto esperamos o Tempo da Justiça chegar é fazer Arte, falar sobre Arte, acreditar cegamente na Arte e em seus benefícios. A Arte nos auxilia a enxergar a verdade, a estética não padronizada, o belo fora da caixa, o olhar de dentro para fora.

A Justiça em tempos remotos tinha como lema: “olho por olho, dente por dente”. A obra do enigmático Tunga, “Olho por Olho” é o contraponto da balança de Têmis. Num tabuleiro de xadrez são dispostos dentes como peças, num jogo que irá decidir quem está apto a ganhar a justiça. Belíssima metáfora da vida, o jogo de xadrez é até hoje o estereótipo da máxima do estrategista que sabe que os requisitos para ganhar são concentração, inteligência e paciência!

Boa partida, jogadores da vida!!!

tunga 2005Tunga, “Olho por Olho”- Xadrez, 2005