Sobre as “coisas”

tuca vieira

Não sou uma conhecedora muito aprofundada das “coisas”, mas quando as conheço, as “coisas” são bem profundas em mim. Tenho certa queda e curiosidade por “elas”, quaisquer que sejam, até que me provem que não sejam tão curiosas assim. Uma delas foi a fotografia de uma cena do altar de um casamento. Ricamente adornado por flores de todos os lados, ao longo da passarela, na estrutura criada para o altar, no teto, nas paredes, com gigantescos lustres pairando no ar e o majestoso véu da noiva descendo pelos degraus, a cena se distorce e como num passe de uma mágica (ou um jogo de espelhos), tudo se duplicava, refletindo esse sonho angelical de cabeça para baixo. O casamento de um famoso advogado, onde se estima um gasto de dois milhões de reais para a festa com mais de mil e quinhentos convidados, não ganhou a capa da revista, mas ganhou a minha atenção e curiosidade.

A luxúria e o exagero na cenografia refletida e duplicada de pernas pro ar foi um insight para uma das leis do antigo filósofo Hermes Trismegisto, a lei da Correspondência: “o que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.” O que na natureza é bem comum compreendermos através das árvores, como o tamanho de suas copas para cima ser o mesmo ou proporcional de suas raízes para baixo. A imagem do altar invertida nos sugere um encontro com o além, fica subintendido uma distorção, um ato falho em toda beleza captada pela lente do fotógrafo.

Se, porém esta imagem não foi suficiente para visualizar a ideia da Lei da Correspondência recorro à imagem do fotógrafo Tuca Vieira, de 2003, que conseguiu captar a engenhosidade de um condomínio de luxo e coloca-la lado a lado com a enfermidade da favela.

Sem querer ser dramática ou fazer discurso socialista, longe de mim isso, porque sou romântica demais para essas “coisas”. Mas ninguém precisa ser um gênio para compreender que tudo tem uma causa e feito, se você destrói você tem de construir, ou vice-versa.  Tenho tido muita esperança e logo a perdido. Certamente o ser humano é um doente incurável, mas insistimos em viver com saúde. Estamos fadados a nos destruirmos se não aprendermos a nos construirmos. Quem já ouviu a trágica história dos Rapa Nui saberá do que estou falando. Mas até lá ainda estarei disposta à conhecer muitas outras “coisas”. E assim segue a vida!