Santo Anjo do Senhor

No primeiro dia de 2020 o ‘meme’ mais comentado das redes foi a comprovação da Terceira Lei de Newton pelo Papa Francisco (para toda ação há uma reação) por causa de um incidente com uma fiel! Após se desculpar publicamente aproveitou a oportunidade para fazer uma crítica sobre a violência contra as mulheres. O Santo Padre, que vem se superando a cada ano, ganhou um filme-documentário do cineasta Fernando Meirelles, “Dois Papas” (2019). A película experimenta o ponto de vista do diretor brasileiro sobre a trajetória do argentino Jorge Bergoglio ao papado e não é nada imparcial no que diz respeito à cultura latino-americana, principalmente quando o protagonista afirma que “na Argentina tango e futebol são obrigatórios”. Um misto de humanismo e sensibilidade acabam por integrar a personalidade do personagem interpretado por Jonathan Pryce, que age, na maioria das vezes, por instinto, intuição ou pressentimento.

“Não havia celibato até o século XII. Os anjos só foram mencionados a partir do século V e de repente havia anjos para todos os lados, como pombos. Nada é estático na Natureza, nem no Universo, nem mesmo Deus”.

No diálogo que cerra com o Papa Bento XVI, o protagonista, ainda um Cardeal, se mostra sempre coerente e conciso de seus pensamentos. O filme discorre sobre suas convicções ideológicas e justificativas sobre a perda de fiéis da Igreja ao longo dos tempos por ímprobos meios para atingir seus devidos fins. Num discurso rígido e conservador de seu antecessor, percebemos a vulnerabilidade de um outro Papa, que apesar de antipático admitiu seus erros e renunciou ao cargo por uma esperança na Reforma do Catolicismo.

Falar de História da Arte sem citar a Igreja Católica seria uma heresia. Ela promoveu e financiou grandes nomes da Arte e principalmente, da Arquitetura. Encomendas faraônicas surgiram a partir do século XII, como a gótica Catedral de Notre Dame (1163-1345) em Paris, que sofreu um desastroso incêndio em abril do ano passado, o que mobilizou milhares de pessoas e doações. Andrea di Cione (1320-1368), Donatello (1386-1466), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Rafael Sanzio (1483-1540), Guido Reni (1575-1642) só para citar alguns italianos inesquecíveis da Renascença! A Catedral Sagrada Família, do espanhol Antoni Gaudí (1852-1926) é ainda um dos maiores e mais lindos cartões postais depois do Vaticano. Nas Américas, o Barroco brasileiro deixou suas marcas com a miscigenação de culturas indígenas, europeias, africanas e árabes com catedrais erguidas em adobe e ouro. As majestosas e incontáveis casas do senhor em Ouro Preto são do auge do ciclo deste metal nas Minas Gerais. E quem nunca ouviu falar do Mestre Aleijadinho (1730-1814) e seus 12 profetas, no município de Congonhas?! Aqui em Goiás, também temos finíssimos exemplares esculpidos e financiados pela Igreja Católica, do exímio artesão Veiga Valle (Pirenópolis 1806 – Cidade de Goiás 1874) e também o italiano, Frei Confaloni (1917-1977) importante expoente das artes plásticas goiana. Igrejas modernas de tirar o fôlego foram construídas em desafiantes projetos de engenharia, como a Igreja de Santa Cruz (1956) integrada às rochas do Arizona, nos EUA, a Catedral da nevada Tromso (1965), na Noruega ou a lisérgica Igreja de San Giovanni Battista (1996), em Mogno, na Suíça e ainda a Igreja sobre a Água (1999), em Osaka, no Japão.

Em artigos passados aqui do Blog citei o nome de artistas contemporâneos de diferentes gerações que fizeram suas considerações sobre a Igreja, para não dizer, ácidas críticas através de obras polêmicas como a do irlandês Francis Bacon (1909-1992), do argentino Léon Ferrari (1920-2013), do italiano Maurizio Cattelan (1960) e do goiano Siron Franco (1947) (link: http://www.potrichgaleria.com/wp-content/uploads/2018/05/casa-mente-real.jpg ). Mas também citei renomados artistas como Alfredo Volpi (1896-1988) e Francisco Galeno (1957) que aceitaram o desafio de pintar o altar da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima (1958), do arquiteto, Oscar Niemeyer (1907-2012), em Brasília. A mostra “Imaginária” (2018), realizada na Capela Ignez, no Rio de Janeiro em prol da fundação carioca foi composta por grandes painéis da série “Repro Saints”, do artista paulista, o fotógrafo Vik Muniz (1961), que reproduziu obras clássicas numa releitura contemporânea e subversiva de imagens sacras.

Por fim, devemos levar em consideração que em tudo (ou quase tudo) há dicotomia. A palavra hebraica para anjo, por exemplo é malakl, que significa mensageiro. Um mensageiro pode levar uma mensagem boa e ruim, afinal quem ainda não sabe que o significado de Lúcifer é luz!? A principal mensagem do filme é a respeito do perdão e como nele se redimir. Num diálogo entre os dois Papas, a fala do ator Anthony Hopkins resume: “Tem um ditado que diz: ‘Deus sempre corrige um papa apresentando um outro ao mundo’. Quero ver minha correção”.

A gente também!

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Catedral Metropolitana de Brasília por Oscar Niemeyer, 1970