Rivais

Pela etimologia, do latim clássico, rival vem de “ribeiro, arroio, rio” ou “aqueles que compartilham o mesmo rio”. Rivalidades à parte temos de admitir que todo rio corre para o mar. Na virada do século XIX para o século XX, duas grandes rivais e ícones imortais da moda, a italiana Elsa Schiaparelli e a francesa Coco Chanel travaram uma corrida ao podium do mundo fashion. A primeira experimentou ousadias das Artes Plásticas, se afirmando com um estilo surreal e exótico. Aclamada pela classe artística, se tornou uma fugaz divulgadora da obra de Salvador Dalí. Já Chanel criava roupas funcionais para a mulher moderna, num estilo clássico, recatado e quase monocromático. Cada uma seguiu seu caminho, mas no mesmo rio e com o mesmo objetivo, inovar.

E por falar em moda, duas revistas referências acabam de lançar, simultaneamente, capas arrebatadoras. A Vogue Brasil ousou um ensaio com a polêmica Pablo Vittar, um espetáculo de androgenia, drag style, queer, sadô e outras ‘cocitas más’! A Elle Brasil lançou, após anos sem a versão impressa, capas imperdíveis com celebridades negras como a cantora IZA, o músico Gilberto Gil, a escritora Djalma Ribeiro e a cafuza Katú Mirim. Referências unânimes em moda, as duas revistas rivais podem ora atrair, ora repelir seus espectadores.

Na História da Arte rivalidades eram comuns entre os artistas, desde os expressionistas aos impressionistas, dos surrealistas aos cubistas, ou dos dadaístas aos modernistas. No Brasil, sempre existiu um apartheid entre a frente artística paulista e a carioca. O circuito cultural que nas primeiras décadas do século XX até o início do século XXI se restringiu à estas duas metrópoles, atualmente vem se expandindo (em suas devidas proporções) para outras regiões do país, onde também procede a rivalidade regionalista. Essas diferenças entre o processo produtivo e comercial de cada artista está intimamente ligado à postura ideológica e fidelidade à sua pesquisa.

Agradando ou não à gregos, goianos ou romanos, os artistas são imbatíveis em se rivalizarem, mesmo porque seu trabalho é árduo e solitário. “Toda criação é resultado de uma profunda solidão”. Não há como materializar uma ideia enquanto ela ainda está no plano ideológico onde só o artista enxerga o tom das cores, as proporções das formas, a textura da tinta, a gesticulação corporal. E talvez, este seja o maior desafio dos artistas, descobrirem quem estará a sua altura ideológica para assim, se rivalizarem no plano material, como num fluxo que segue o rio!

Tatiana Potrich entre obras dos artistas goianos Marcelo Solá e Pitágoras Lopes. Ensaio fotográfico realizado pela Guta Guerra em comemoração aos 40 anos da Potrich Galeria.