PASSADOS / PAST

REVERBERA – Toda Pintura

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Pitágoras desenvolveu uma trajetória integralmente comprometida com os ideários romântico e expressionista, incidindo no descompasso existencial entre o sujeito e o mundo. É um artista que opera com os códigos desta tradição produzindo trabalhos que denunciam compulsividade, rapidez e precariedade propositais na fatura. Mesmo que seu desempenho técnico tenha se apurado com os quase vinte anos de trabalho, esse depuramento fez-se dentro da rebelião contra o acabamento formal; buscou uma situação de desconforto. Em sua obra o cromatismo é ora carregado, abusa de cores fortes e gritantes, ora é denso e tomado por uma dominante sombria que rebaixa tudo à penumbra. Seu gesto é intenso, forte, carregado de expressividade indomada, em certo sentido é brutal, sem condicionamentos; afirma seu controle sobre o espaço e sua força para gerar um mundo subjetivo de paisagens artificiais povoado por pessoas, insetos, animais, aparelhos domésticos ou retirados de contextos ficcionais. Seus temas e personagens estão inseridos num ambiente trágico sob auspícios de Eros e de Tanatos. Figuras burlescas como máscaras encenam sua solidão, incomunicabilidade, sordidez e mesquinhez, vestindo as roupagens traumáticas da angústia contemporânea. Figuras que caricaturam a vida noturna das metrópoles em ambientes decadentes e mundanos, onde o desejo é despertado, os vícios satisfeitos e o corpo profanado.

Desenhos, pinturas e intervenções sobre reproduções fotográficas fazem parte do leque de técnicas que o artista emprega para constituir sua obra. Não importa qual a técnica ou o se o suporte é tela, papel ou página de revista, o vigor com que Pitágoras constitui seu universo se mantém. Sua investigação do desenho é intensa e obsessiva, nela a redução dos valores cromáticos permite um maior desempenho dos valores gráficos, pois a linha de contorno se fixa com energia e urgência. O desenho é o laboratório onde ensaia todos as questões que leva para a pintura: o repertório de personagens e animais, os ambientes, a escritura primeira e os signos retirados do ambiente rupestre, as imagens vindas de reminiscências dos quadrinhos, o aspecto caricatural, o diálogo – mesmo que inconsciente – com outros artistas. No campo da pintura a cor adquire papel fundamental na criação de um clima de tensões nervosas, no qual os acordes de cores traduzem ambientes da subjetividade. A rapidez e a ação corporal do ato de pintar permanecem visíveis na superfície e se tornam elementos de sua poética. Nas intervenções sobre reproduções fotográficas, Pitágoras utiliza geralmente catálogos de moda para desconstruir um padrão visual e um campo de significação traçado pela publicidade. Nessas intervenções fica patente que muito da obra do artista consiste em desmontar o circulo de ilusões que disfarçam a situação de conflito em que vive a humanidade atual, cercada de valores efêmeros e falsos.

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Carlos Sena Passos