Relatividade

Os grandes gênios, pensadores, cientistas e filósofos deixaram e deixarão um legado para as próximas gerações refutarem, repensarem e refletirem constantemente e ainda sim, terem dúvidas sobre suas conclusões. Não por menos sermos agradecidos ao “or concur” Albert Einstein por ter nos presenteado com a Lei da Relatividade. “Tudo é relativo dependendo do referencial”.

Por exemplo, se você é a favor da monogamia, mas mora na Arábia Saudita e se casa com um sheik, pode ir fazendo o favor de mudar de ideia. Algumas tribos africanas também praticam a poligamia com naturalidade. Em certas aldeias indígenas, quando um dos membros era identificado homossexual, o cacique o convocava para ser o Pajé, por sua sensibilidade nata. Noutras aldeias mais selvagens, os homossexuais eram exterminados.  Em entrevista à BBC Brasil, o médico Dráuzio Varela dá seu depoimento à respeito do aborto:

“Se você diz: eu sou contra o aborto. Tudo bem! Por questões religiosas, por quê? Porque a vida começa quando acontece a fecundação. Tudo bem, você como católico ou evangélico pode pensar assim. Mas alguns não pensam. Por exemplo: os judeus acreditam que a vida começa quando a criança nasce”.

Tudo é muito relativo!

O iconoclasta britânico, Samuel Butler (1835 – 1902) ficou famoso por uma sarcástica citação: “Qualquer idiota é capaz de pintar uma tela, mas só um gênio é capaz de vendê-la”.

A filosofia abrange aspectos da natureza humana dos quais aponta uma forte tendência ao aprimoramento através do autoconhecimento. Todos somos artistas, todos somos capazes de criar. No entanto é relativa a qualidade, a ideia, o momento de cada um e de nossa criação.  Muito se questiona a respeito da verdadeira arte, aquela que valorizará com o passar do tempo, aquela que é banida da sociedade na contemporaneidade e creditada bem mais tarde, aquele artista ou poeta que só será valorizado depois de morto. Acompanho polêmicas acerca das personalidades que são indicadas às cadeiras da imortalidade na Academia de Letras. Uma delas, o compositor norte-americano Bob Dylan, que causou um furor internacional, mas não antes, claro, do mago brasileiro, Paulo Coelho e agora o cineasta, Cacá Diegues. Há quem replique contra os ilegíveis escritos de Fernando Henrique Cardoso ou critique o título de imortal a ser dedicado à primeira mulher negra. São episódios da história que marcam um tempo e a relação da sociedade com sua cultura.

O artista chinês Ai Wei Wei, numa performance que o consagrou, quebra uma urna da Dinastia Hans, de 2000 anos, alegando o mesmo ditado do ditador: “Para se construir uma nova cultura deve-se destruir a antiga”. É mais um dado para o artigo do domingo passado sobre o assunto da inclusão da destruição na produção artística como processo de criação.

Por isso, quem sabe, seja tão difícil e relativo apontar verdadeiros artistas, celebridades e gênios no tempo vivente, no momento atual que estejam fazendo a diferença, que estejam saindo da zona de conforto e não entrando nela. Somos arrastados pelas marcas do tempo para cair em si sobre quem somos, onde estamos e para onde vamos.

Butler tem outra pérola, a qual finalizarei o texto para uma breve reflexão dominical:

“O talento não respeita tempo, dificuldade, dinheiro ou pessoas – as quatros coisas para as quais os humanos se voltam persistentemente”.

isto-nao-e-um-cachimboRené Magritte, 1929