Reflexões e Refutações

Certa vez, ministrando uma palestra para o circuito Rumos Itaú Cultural, em Goiânia, a pesquisadora, curadora e professora Aracy Amaral confessou não existirem mais autores, mas sim, editores. Tudo que imaginamos criar está pronto, atualmente apenas editamos as ideias já concebidas. Num dos poemas do filho de sertanejo com uma baiana, o poeta Wally Salomão, nos deparamos com o verso: “a memória é uma ilha de edição”. Dentro desta concepção um embate com a criatividade e uma nova forma de expressar ideias nasce com propostas editadas a partir das antigas.

Uma inusitada e corajosa expressão artística vem acontecendo e a “editora” é a afro-cubana americana (como ela se auto-nacionaliza) a talentosa, Harmonia Rosales. Rosales se apropria de imagens ícones da História da Arte: The Virtuous Woman (de Leonardo da Vinci, “O Homem Vitruviano”), The Creation of God (de Michelangelo, “A Criação de Adão”), Birth of Oshum (de Sandro Botticelli, “O Nascimento de Vênus”) e as reedita substituindo as figuras masculinas por corpos femininos negros. A proposta é tão óbvia e contundente que quase passa despercebida não fosse pelos fartos seios que preenchem os corpos das formosas deusas yorubás.

A mitologia africana cita sobre a criação dos orixás através dos fenômenos da Natureza como a tempestade, seus trovões, raios e relâmpagos, os vulcões em erupção, as altas marés, os eclipses, as chuvas de meteoros e uma série de intrigas entres eles, envolvendo traições, guerras, assim como o constante conflito das relações de entidades imortais com os mortais. Tão antiga, tanto quanto a mitologia grega, a história dos orixás conta um pouco de tudo sobre a nada romântica, mas selvagem natureza humana.

Pensando nesse assunto e avaliando recentes descobertas científicas nos confrontamos com algumas refutações a respeito das características fisiológicas do nosso Salvador, Jesus Cristo. Há hipóteses de que o filho de Maria carregasse alguns traços semelhantes às figuras de Rosales. Mas eu não sou cientista, só estou reverberando o que dizem por aí e o que a Arte vem tentando demostrar, quem sabe, há muito mais tempo.

Há também refutações quanto à autenticidade da obra, Salvator Mundi, onde cito em artigo anterior, como de autoria do “mago magnífico”, Leonardo da Vinci. As hipóteses rondam acerca de que um de seus discípulos teria executado a obra, visto que algum detalhe de percepção d’ótica do reflexo de uma esfera na mão da figura teria sido omitido pelo mestre da perspectiva. Além do suposto alarde, ainda há a suspeita se o personagem seria uma mulher ou um homem, como se já não bastasse, a polêmica sobre Monalisa. Isso não abalou a compra bilionária pelo colecionador, mas esquentou os buchichos no circuito da Arte.

Em meio há tantas reflexões e refutações, ultimamente anda bem arriscado ter certeza de qualquer coisa. Tal como o símbolo do pop, Micheal Jackson, que nasceu negro e morreu branco, ou Roberta Close que nasceu homem e vai morrer como uma “mulher”. A flexibilidade de pensamento e edições de ideias fica cada vez maior e mais diversificada com tantas informações e alternativas. Como diz um provérbio passado recente, o mais preparado para sobreviver não é o mais rico, ou o mais forte ou o mais bonito, mas o que melhor se adapta ao ambiente. O que vale mesmo é a qualidade de vida que podemos dar à nossa mente, aos nossos valores sociais e uma postura flexível ao sistema. Vale a máxima, “mente sã, corpo são”.

Somos sempre gratos à Arte por isso!

vietuous womanThe Virtuous Woman, Harmonia Rosales, 2017. Via Pinterest