Quem planta, colhe!

O masterchef, Alex Atala certa vez contou uma experiência vivida quando fazia intercâmbio gastronômico no vilarejo de uma região ribeirinha da Amazônia. A troca entre ingredientes e as receitas administradas pelo gourmet eram fornecidas em embalagens de isopor e distribuídas aos grupos cadastrados do projeto. O fato é que após um tempo, Atala voltou à região e se surpreendeu com as embalagens de isopor espalhadas pelas ruas do vilarejo, sem qualquer reação dos habitantes para recolhe-las e/ou descarta-las corretamente. Conversando com as pessoas ele percebeu que elas não tinham nenhuma noção do que fazer, pois o isopor era um elemento inexistente na região, não se soube se era ou não para descartar, devolver, ou se a própria Natureza cuidaria de dar cabo ao produto industrializado, ninguém tomou qualquer providência à respeito. Moral da História: Alex Atala entendeu que todo processo de aprendizado e troca deve haver um começo, meio e fim com uma metodologia muito bem explicadinha. Não adianta ir lá, atender a comunidade e não explicar à ela como proceder depois.

Um antigo ditado judaico, que ainda parece vir pra puxar a orelha de muito “famosinho” por aí, diz assim: “A caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Em tempos de eleição então, não vou nem comentar. Um artigo de alguns anos atrás da Revista Veja trazia uma reportagem sobre as contradições da filantropia. Quando ela é benéfica e quando é nociva? Bem, das cinco ou seis páginas o resumo é o seguinte: se você faz por vontade e acompanha o desenvolvimento do órgão ao qual está contribuindo e acredita estar progredindo de forma construtiva, ok! Mas há um grande grupo que faz por desencargo de consciência: “Olha, como estou doando uma fortuna aqui, posso ostentar mais um bocadinho ali”. Mas isso não é nenhuma novidade, então por que ainda vivemos este ciclo vicioso? Alex Atala que o diga! Porque dá trabalho, muito trabalho. Demanda tempo, conhecimento, desprendimento, mas principalmente amor pelo que se está fazendo.

Por isso a Arte, o artesanato e toda e qualquer atividade manufaturada sempre será uma certeira solução! São os criadores e produtores: os artesãos, os carpinteiros, os ferreiros, os sapateiros, os ourives, os costureiros, os cozinheiros, os agricultores, os artistas. Estes são os verdadeiros filantropos da sociedade. Eles contribuem para o aprendizado, a cooperação, a construção de um mundo mais autônomo, mais justo, mais humano. Mas as máquinas vão tomar o lugar deles. Será? Qual o valor de uma reprodução e de uma peça original? Ou qual a qualidade de um produto orgânico à um transgênico? Quanto vale o seu tempo, o seu desprendimento, o seu altruísmo? Vivemos em tempos distópicos e me parece que quanto mais o queridinho das redes sociais se mostra fazendo filantropia, mais o lobo mal se transveste de ovelha (sobre o post passado). Enfim, momentos para refletir e desacelerar não faltarão, resta então fazer o bem importando a quem para colhermos os resultados e, como diria um outro antigo ditado: “Ensinar a fazer a vara, para aprender a pescar o peixe, depois aprender a cozinhar e se virar sozinho”.

“A educação é cara? Experimente a ignorância”!

Ilustra o post obra da série “Emblemas” do artista paulista, Rubens Ianelli, em fios de ferro com motivos geométricos que remetem sua pesquisa entre tribos indígenas e seu engajamento na cultura africana. A obra integra a mostra “Primavera Brasiliana”. Agende sua visita!