Que venha a primavera

Tem curiosidades que só a Arte se encarrega de nos ensinar! Fui descobrir que Alexandre Dumas, o escritor francês do clássico “Os Três Mosqueteiros” (1844) era negro, no filme do diretor Quentin Tarantino, “Django” (2012), numa cena memorável, onde o caçador de recompensas alemão (Christoph Waltz) e o desalmado senhor feudal norte-americano (Leonardo DiCaprio) travam um diálogo mortal. Dumas foi filho do general de exército de Napoleão e escreveu entre outros épicos que marcaram a literatura romântica do século XIX, “O Capitão Paulo” e “O Conde de Montecristo”.  O escritor é um dos retratos hiper-realistas das pinturas do artista baiano, Tarcísio Veloso, que esmiúça cada detalhe de seus personagens para lhes dar mais expressividade e força representativa.

Inspirado pelo poema do espanhol Calderón de La Barca, “A vida é sonho” (1635), o artista investe na atmosfera romântica e resgata a beleza e cuidadosa estética do renascimento europeu. Mas a sutileza de suas obras é só fachada para o poderoso discurso crítico sobre a sociedade contemporânea. Ele compreende que assuntos e diálogos como o que foi proposto por Tarantino, em Django, são relevantes em épocas sombrias de equívocos à valores morais e éticos da sociedade. São borboletas, beija-flores, rosas e tulipas que adornam corações hiper-realistas, espiritualizados, sagrados, laicos , também uma coroa de flores que adornaria, como diria Renato Russo tanto “Meninos como Meninas”.

O artista goiano, Avi Neto não só adorna sua personagem com flores como a integra no lugar da cabeça de suas figuras femininas. A Senhora Peony é esguia, sensual e carrega em seus pensamentos, frágeis e suntuosas pétalas. A peônia é uma flor típica do Hemisfério Norte e tem propriedades medicinais, curiosamente, a cultura chinesa e grega a utilizavam para rituais de cura. Para os esotéricos os efeitos mágicos da flor eram direcionados aos tratamentos alternativos. Avi passou anos estudando em Toronto, no Canadá onde concluiu sua graduação e se dedicou profissionalmente nas áreas de arquitetura e urbanismo.  Lá se deparou com a realidade de um país desenvolvido, resgatou elementos do estilo realista e compôs à sua obra figuras fantásticas saindo de sua zona de conforto para recriar uma particular realidade fantástica. Assim como a peônia o trabalho do artista está carregado de magia, seja pelos inusitados cenários de seus personagens, seja pela organicidade de seus temas.

Dois artistas que se baseiam no estilo do Realismo se expressando com diferentes histórias e trajetórias de vida. Abraçamos a ideia de ambos e a compartilharemos com você no próximo dia 19 de Setembro a partir das 20h, a mostra “Realismos Particulares”. Finalizo o texto com pouco mais da poesia cantada de Renato Russo, “Perfeição”:

Venha, meu coração está com pressa. Quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a Primavera. Nosso futuro recomeça. Venha, que o que vem é Perfeição“.

Que venham mais flores. Que venha a Primavera! Esperamos você!

tarcisio e aviTarcísio Veloso, “Maria com Flores”, 2019  –  Avi Neto. “Hora do Chá”, 2019