PASSADOS / PAST

PROJETO GRAVADO

 

Há pelo menos vinte anos, circulo cotidianamente pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás e uma cena é sempre constante: a atividade do ateliê de gravura. Costumo entrar lá. Às vezes ele está cheio de jovens dos diferentes cursos oferecidos pela faculdade, trabalhando em clima alegre e ameno, enfrentando os materiais ásperos e duros das matrizes com a curiosidade de iniciantes e a estranheza dos instrumentos que aprendem a manipular, com os quais começam a dialogar.

Algumas vezes me surpreendo entrando num ambiente de ficção, personagens de outros tempos, lugares… Sou levada pela antiguidade do ofício, dos instrumentos, dos gestos, das máquinas manuais.

Algumas vezes vemos ali, absorto, um ou outro trabalhador solitário, concentrado em seu fazer, riscando, lixando, polindo metais e pedras, escavando taboas de madeira, enfrentando a dificuldade de manobrar a prensa, fazendo testes de tinta, impressão e papel.

A força dinâmica e tratora do mais antigo ateliê da faculdade é a presença positiva, firme e persistente do gravador Zé César, professor responsável pelo espaço e por um projeto pessoal de experimentação de meios e linguagens de gravura que alcançou ao longo destes anos, maturidade intelectual e grande desenvoltura técnica.

Gravura é uma palavra que designa o processo artístico de gravar a imagem sobre uma matriz — superfície de madeira, pedra, metal, papelão, gesso, plástico, ou outros materiais — por meio de incisões, corrosões, talhos, com auxílio de instrumentos especiais, como pontas, goivas, brunidores, estiletes e outros. Gravura também designa a imagem obtida quando se entinta a matriz e imprime-se sobre papel ou outro suporte escolhido, portanto, a obra impressa.

Ao contrário do desenho, estes procedimentos visam à reprodução da imagem em determinadas quantidades de cópias, preestabelecidas pelo gravador, de acordo com seu projeto de edição e da natureza das matrizes, observando sua resistência aos procedimentos de impressão. Nessa medida, tanto as matrizes como cada cópia obtida pela impressão de uma matriz criada pelo artista, é um original: as cópias são numeradas e assinadas pelo autor e organizadas em edições com tiragem limitada.

Valendo-se de uma vasta experiência conquistada ao longo de anos, que abrange praticamente todas as formas principais da gravura, a xilogravura (matriz de madeira), a litografia (pedra), gravura em metal, serigrafia, Zé César concentra-se num projeto estético antes de tudo, experimental: partindo do princípio de que tudo o que pode ser impresso pode ser gravura, sua investigação permite inclusão de todo material que queira testar, instrumentos que venha a adotar, formas de gravar, suportes, matrizes, substâncias químicas, tintas, vernizes, técnicas de impressão. Tudo isso pode ser constantemente colocado em questão e em processo.

Com esse foco de trabalho e dotado da capacidade de ver pela perspectiva da gravura, Zé César acaba aglutinando grupos de gravadores que se sucedem ao longo de sua trajetória no ateliê da FAV. O grupo que agora conhecemos por meio da exposição PROJETO GRAVADO trabalha a partir da curiosidade experimental com diversidade de materiais e técnicas, praticando desde as mais conhecidas às não convencionais, às vezes criando técnicas adaptadas pelo interesse compartilhado com alguma outra área criativa, como a pintura, o design gráfico ou de moda, a ilustração, a fotografia, a arte digital.

É um grupo bastante heterogêneo de doze gravadores, com diferentes tempos de envolvimento com a atividade, composto por alunos e ex-alunos dos cursos de graduação em arte e design, alunos da pós-graduação em arte e cultura visual, funcionários da FAV/UFG e artistas da comunidade, que se vincularam a um projeto de pesquisa acadêmica — Ateliê Livre: pesquisas e procedimentos experimentais em gravura e estamparia configurando um grupo de pesquisa em poéticas visuais e desenvolvendo uma linha de pesquisa concentrada na FAV, denominada “Processos contemporâneos de produção de imagens visuais”.

Zé César desenvolve há vários anos a pesquisa em matrizes de plástico que o levou a um domínio excelente da técnica. Tema do seu doutorado realizado na Universidad Complutense de Madrid, essa experimentação deu origem a um livro intitulado “A Gravura em Matrizes de Plástico”, publicado pela Editora UFG. Também investiu no tema das cidades, publicando “De gravuras e cidades” pela editora UFG, realizando várias exposições e compondo a série “Metrópolis”, de 2013 que integra a mostra.

Alana Borges tem investigado e produzido principalmente a partir de matrizes de borracha e impressões sucessivas em camadas que exploram a transparência. Célia Gondo trabalha a peculiaridade do plástico como matriz que permite o relevo e encavo, em composições que envolvem espelhamentos e rebatimentos. Chris Frauzino resgata e toma por matriz placas de assoalho de peroba rosa que pertenceram à antiga casa da família e imprime pelo processo de frottage sobre tecidos de crepe, construindo uma poética dos afetos, das lembranças.

Eduardo Ávila, aliando conhecimentos em design gráfico, estuda o uso de dobraduras como matrizes e experimenta o conceito de “gravobraduras” analisando o trajeto da imagem rumo à formação de padrões visuais e explorando a serigrafia e os meios digitais. Helder Amorim explora várias técnicas e utiliza imagens que valoriza por seus esboços, buscando a lembrança vaga do gesto do gravador.

A partir da pesquisa “A matriz de gravura como elemento da moda”, Lavínnia Seabra imprime em suportes tridimensionais, trabalhando na fronteira entre arte e moda. Familiarizado com as principais técnicas de gravura e experiente impressor, Liosmar Martins trabalha, hoje, com xilografia usando MDF, massa acrílica e imprimindo sobre compensado, além de papel. Luciene Lacerda utiliza a fotografia como elemento modificado digitalmente que reutiliza na construção de outras linguagens, através de técnicas de gravura.

A produção de Reijane Cunha envolve experimentações com tecidos, bordados e outros materiais alternativos para construir matrizes de colagravura, que operam por relevo. Veronica Noriega transforma imagens fotográficas em imagens gravadas tomando a condição visível do corpo como matéria.

Por fim, Vinícius Yano aprofunda-se nas técnicas tradicionais de xilo e gravura em metal, desenvolvendo temas comuns às artes orientais e à ilustração científica, na figuração de aves, peixes e plantas, buscando a singularidade da sua expressão gestual.

O que pode unir esse grupo na sua diversidade de interesses, técnicas, materiais, experimentações e linguagens artísticas?

Em primeiro lugar, a identificação com a pesquisa. Mantida a premissa básica da criação de matrizes, mantém o desejo de constituir séries de obras em que cada reprodução passa à condição de original, que é a base do pensamento da gravura e cujo produto final é múltiplo e editável.

Por fim, temos a complexa relação entre tradição e contemporaneidade, uma conturbada continuidade, minada de rupturas críticas e retomadas, fendas quebras, desvios, esquinas das linguagens onde se entreveem, misturam, rompem e irrompem os processos investigativos.

Uma velha técnica de impressão pode tornar-se, por meio de mudanças na sua estrutura de procedimento, uma nova técnica de imagem?

Da imagem como fim, objeto, à imagem como material, processo; da concretude do ferro, da pedra, do papel, até a dissolução da materialidade na matriz digital, o que é instigante e relevante na gravura atual?

Tensões da pesquisa.

 

Ciça Fittipaldi

Novembro de 2013

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