Ponto de Vista

Nas chapas fotográficas do séc. XIX, o corpo do negro foi objetificado para estudos científicos ao zoólogo suíço Louis Agassiz (1807-1873) e sua mulher, a americana Elizabeth Carry. O artista paulista, Fernando Ekman se apropriou de um desses estudos e produziu o tríptico, “Mestiços” (2010) com carvão, betume e tela de algodão propondo um resgate das almas que retomam seu estado poético expressado pictoricamente. A obra fez parte da mostra coletiva na Potrich Galeria, “NOSOTROS – a arte e o corpo humano” (2017). As mesmas chapas foram fonte de inspiração para a renomada artista, Rosana Paulino em sua instalação, “Assentamento” (2013), que estará exposta até 4 de março, na Pinacoteca de São Paulo. O tema da imagem é assunto vasto para o campo das Artes, Sociologia, mas principalmente para a História do Brasil, que aponta o lugar do negro e sua condição, num determinado momento, como objeto, produto e mercadoria. Rosana Paulino tem um discurso bruto e ácido, mas ao mesmo tempo feminino e sutil quanto à falsa noção de democracia racial. Sua retrospectiva vem de encontro com as atuais discussões sobre feminismo, racismo, minorias, cotas e se pagamos ou não por essa “dívida interna”. Ora, ironicamente fatos contraditórios assombram e dividem nossa nação.

Um curioso acontecimento fortaleceu o discurso dessa “costura da memória”, cometendo um anacronismo desnecessário. O precioso filme “Vazante” (2017), da diretora Daniela Thomaz tomou de assalto a “fragilidade branca” quando confrontado com a voz das minorias. O filme é um recorte do Brasil do séc. XIX, que narra a história de uma fazenda decadente isolada em Minas Gerais. A trama é inspirada na história de família da diretora, onde um parente de 50 anos se casa com uma jovem de 12 anos. O patriarcalismo branco foi o protagonista do filme colocando os negros como meros figurantes num período em que eram menos que isso.

A polêmica em vésperas de seu lançamento se deu a partir de questionamentos atuais sobre a tal “dívida” e como o tema deveria ser abordado em filmes da contemporaneidade. A diretora foi até acusada de racista fortalecendo o conceito da fragilidade branca confrontada com a “minoria” negra. Esqueceram-se de que o cult do diretor norte-americano, Quentin Tarantino, já havia protagonizado o personagem de “Django Livre” (2012), enquanto o ponto de vista da brasileira foi outro em relação à escravidão. Infelizmente o filme caiu no ostracismo por pura bobagem anacrônica.

Mas o curioso dos acontecimentos não acaba por aí. O ator que dirige o filme “Marighella” (2019), nosso eterno “Capitão Nascimento”, Wagner Moura, também caiu nas graças dos “memes” das mídias. Acusado erroneamente de usar a Lei Rouanet para financiar o filme sobre o ativista afrodescendente baiano, Moura foi duramente criticado e rotulado como “comunista”. Ora, a ironia está exatamente aí. Expor um ponto de vista de um “líder rebelde, um santo ateu” num período da História do Brasil não é fazer apologia ao terrorismo, é identificar as causas e consequências das políticas totalitaristas deste período. Moura apresenta apenas sua versão brasileira de “Django”.

Atribuir rótulos às expressões artísticas é condená-las como certas e erradas, quando em verdade são pontos de vista de pessoas sensíveis, compromissadas com sua pesquisa, com seu objeto de estudo, sua Arte! Sem anacronismos, rótulos ou críticas pausemos um instante para refletir sobre os fatos e façamos um esforço de nos colocar no lugar do outro para tentar identificar a problemática de cada período, cada realidade, cada cidadão brasileiro.

Querer o “branqueamento racial” (Hamilton Mourão) ou a “revolução morena colorida” (Carlos Marighella) são diferentes pontos de vista. Se você é branco e se coloca no lugar do negro e vice-versa, o que você faria? Quem seria o seu protagonista?

Tudo é uma questão de ponto de vista!

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Fernando Ekman, “Mestiços” (2010), 100 x 180 cm.