PASSADOS / PAST

PESQUISA MAIS GRAVURA

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A gravura tem uma relação íntima com a pesquisa, talvez pela maneira indireta de construção de uma imagem sobre uma matriz que só se realiza completamente, isto é, só se torna visível após sua impressão. Talvez pela alquimia de seus processos que traz no seu bojo uma descoberta ou a possibilidade de uma surpresa. Talvez pela variedade de processos e técnicas que evocam ou provocam sempre a investigação de novas possibilidades. Esta parceria – entre gravura e pesquisa – se intensifica atualmente devido aos novos materiais e meios tecnológicos de criação e impressão disponíveis, fato que contribui para o surgimento de novos conceitos de gravura.
Os participantes desta exposição são pesquisadores da Linha de Pesquisa em Poéticas Visuais, do Programa de Pós-Graduação em Cultura Visual, da Faculdade de Artes Visuais, da Universidade Federal de Goiás. A princípio, todos têm em comum duas coisas: a gravura e a pesquisa. Ou seja, todos desenvolvem uma investigação poética em gravura.
Alana Morais investiga a construção de matrizes de plásticos colados superpostos e os imprime de distintas maneiras, uma sob a forma de impressão tradicional da gravura em oco ou em relevo, outra a impressão digital que esta matriz escaneada possibilita. Lavínnia Seabra consegue curiosamente unir gravura, moda e tecnologia: produz uma matriz com um processo de gravação a laser que é em seguida transformada em roupa, tanto a matriz produzida quanto a gravura impressa em tecido. Manoela Afonso explora poeticamente impressões monotípicas sobre tecidos umedecidos. Ao utilizar a dobra como matriz geradora das imagens, ela assume o acaso e a surpresa como elementos dessa produção. Nancy de Melo se mantém na gravura “tradicional” (assim entre aspas), pois trabalha com gravura em metal, mas introduz no ateliê cenas e hábitos do cotidiano doméstico, como a degustação de vinho ou cerveja, gravando na matriz as marcas deixadas pelos copos sobre a chapa, como se fossem uma mesa de centro de uma reunião de família ou de amigos. Sérgio Penna, por sua vez, une um processo tradicional com a tecnologia, produzindo uma monotipia que será por sua vez digitalizada e trabalhada num computador. ZéCésar procura com a impressão sobre papéis de jornais a contradição de gravuras de imagens urbanas caóticas ou saturadas sobre imagens de propaganda imobiliária.
Todos esses processos foram – e continuam sendo – cuidadosamente estudados e realizados. Nós, pesquisadores da gravura, buscamos também embasar teoricamente nossas práticas, além de nos exercitarmos com a leitura e a análise das obras de outros artistas que desenvolveram ou desenvolvem uma poética em sintonia com nossas pesquisas.

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José César Clímaco
Prof. do Mestrado em Cultura Visual da FAV/UFG