Parábolas

Há uma parábola sobre o cacique, como bem me contou minha irmã, que diz assim: “Todo índio sabe que quanto mais ele puxar a flecha para trás mais força, velocidade e distância ela ganhará quando arremessada através do arco”. Assim é também com nosso conhecimento, quanto mais resgatamos nossas raízes, nossos antepassados, nossa história familiar mais rápido descobrimos e alcançamos nossos objetivos.

Acabo de ser presenteada com o livro “A Plumária Indígena Brasileira” (2000), da EDUSP, uma relíquia impressa de cocares e adornos de penas das mais variadas tribos brasileira. Verdadeiras joias tecidas com habilidade, estética e espiritualidade, visto que cada ornamento tem sua especificidade, seja ele para celebração, seja para indicar a casta social ou hierarquia dentro da tribo. Essas joias plumárias são um resgate cultural, onde percebemos algumas diferenças entre adornos produzidos antes da chegada dos europeus e pós-chegada, como a introdução de miçangas e fios de algodão industrializados. Uma das peças mais valorizadas e talvez até hoje a mais instigante da história da plumária indígena, seja a grinalda cobre-nuca da tribo Rikbaktsa, do Mato Grosso, ou a Myhara, um ser perigoso, que empresta o nome à peça. O adorno é usado em importantes celebrações, mas principalmente pelos guerreiros mais corajosos em combate. A mística se inicia na confecção da peça “que deve ser feita por homens maduros (casados, com filhos), os detentores da sabedoria da tradição. A feitura dessa grinalda é cercada de cuidados implicando a manifestação de poderes maléficos associados a ela. Precisa ser confeccionada em tempo curto e as sobras de suas penas terão de ser logo aproveitadas para outro enfeite, caso contrário produtor e familiares tornar-se-ão vítimas de suas forças malignas” (apud livro).

Tão curioso e assustador quanto parece, o uso dessa magnífica joia de penas, para o seu merecedor, é tanto de ônus, quanto de bônus. Uma matéria feita no início do ano 2006, antes do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se reeleger, na ocasião em que foi homenageado e elogiado por suas políticas indigenistas, lhe foi oferecida a vestimenta da grinalda como ato de coragem. Rumores do texto jornalístico tendenciaram o ato do candidato com mau-agouro já que Lula estava concorrendo novamente às eleições, no entanto o que aconteceu posteriormente foi sua avassaladora vitória.

A verdade é que para cada mau-agouro há um bom. Uma antiga parábola chinesa sobre o azar conta a história de um pai e um filho que moravam no alto de uma colina. Um dia apareceu um cavalo e os outros diziam que era sinal de azar. Mas o menino acreditava que era sorte e cresceu a cavalgar com o cavalo. Daí um dia, o menino já rapaz, caiu do cavalo e quebrou a perna. Os outros diziam que era culpa do cavalo e o azar que ele trazia. Mas naquele tempo a China estava em guerra e o exército estava recrutando adolescentes para lutarem contra os inimigos. Como o rapaz estava em convalescênça ele não pôde ir, ao contrário dos filhos dos outros, que foram e não retornaram.

A moral da história é que a sorte ou o azar depende do referencial. O que pode ser bom para ele, pode ser mau para os outros ou vice-versa. Não há muito sentido associar sorte ou azar aos artefatos indígenas, mesmo sendo eles detentores de uma mística que pode ser interpretada positiva ou negativamente. Tudo dependerá do quanto formos capazes de puxar a flecha para trás, afinal a vida é feita de altos e baixos, dias e noites, amor e ódio. Ninguém está imune às intempéries do destino. E assim segue a Humanidade, para frente e sempre!

49242685_316609352397864_3495838473951117312_nGrinalda cobre-nuca, Myhara, da Tribo Rikbaktsa, Mato Grosso, 1986.