Padrão de Beleza

O filme a “Invenção do Natal”, lançado pela Netflix em novembro 2020, não tem nada demais. É um filme natalino como outro qualquer, não fosse pelo pequeno detalhe de que todos os atores e atrizes são negros, com exceção do vilão, que é branco, claro! Muita produção cenográfica, efeitos especiais e figurinos estruturados, transitando entre as cores fortes, típicas de estamparia africana tendendo à um estilo kischt, quase cool! Indico apenas para quem ainda tem crianças em casa, porque filme de Natal assim é bom se for com elas! Para os adultos eu indico somente àqueles que ainda tem alguma objeção à protagonistas negros ou mestiços. Se este for o caso, indicarei também a série “Lupin”, com o inebriante ator francês, Omar Sy, um clássico da literatura britânica sobre um Ladrão de Casaca que é um verdadeiro gentleman!

A série “Bridgerton” indico para os teenagers, ou para quem pensa ser, ou ainda gostaria de ser! A atmosfera romântica é típica da “Saga Crepúsculo” ou “50 Tons de Cinza”, só que não, mas é o metódico conto da donzela apaixonada pelo galã indomável e seu título de duque. Um primoroso protagonismo mestiço, que deixou a historinha e o figurino da trama a ver navios. Digamos que René-Jean é o novo Leonardo DiCaprio, versão morena, só que não. Muito melhor! Cotado para ser o próximo 007, o britânico é pura simpatia e volúpia! Ao invés da esgrima, nosso protagonista é filmado sem camisa lutando boxe.  A série tem suas ‘interessâncias’: diálogos educados, personagens caricatos aos seus atores, discrepância entre as classes culturais expressa principalmente nos figurinos e comportamento padrão britânico, que só eles são capazes de ter! Que diplomacia! Entre dizer que você pode, ao dizer que você quer, há uma grande diferença e, na série, isso é dito como traição. Quem assistiu vai entender, mas não darei mais spoilers. O fato curioso é que a Rainha Charlotte, interpretada pela atriz britânica Golda Rosheuvel tinha realmente uma descendência negra. Segundo pesquisadores, houve um apagamento da história sobre a contribuição dos negros na casta nobre da sociedade do século XIX. A própria cor da pele da rainha pode ter sido alterada nas pinturas da época para esconder sua verdadeira origem.

Isso me fez lembrar que em alguns anos atrás uma polêmica atiçada por um certo (ou errado) deputado federal, ou pastor, ou amante (como dizem as más línguas) de um ex ator pornô, atual deputado federal também, declarou publicamente: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Um vídeo no Youtube, com a fala de um historiador, corrigiu o racismo e alienação religiosa do aspirante a pastor com a seguinte declaração:

“O senhor não acha que a maldição da África foram os brancos que invadiram e levaram a sua população como escravos? Que exploraram as suas riquezas naturais? A maldição da África não se deve aos europeus e aos americanos (…)? Sem a nossa invasão a África não seria um continente diferente, visto que lá surgiu o grande império mundial, que foi o Egito? A Etiópia não era a miséria que é hoje. A Etiópia era um país muito rico. A Rainha de Sabá, que levou tantas riquezas para o Reino de Salomão, também era proveniente da África. E por que é que nós insistimos em demonizar a cultura africana? Tudo que vem da África, seja comida, seja música, seja folclore. Por exemplo, a gente é capaz de ir ao cinema assistir um filme do Thor, porque o Thor é um Deus da mitologia nórdica, é loiro, tem olhos azuis, mas o Thor pedia sacrifícios humanos. Quem é que levaria seus filhos para assistir um filme de um Deus africano, tipo Xangô? Que pedia sacrifícios, não de humanos, mas de animais”!?

Que venha uma vice-presidente norte-americana, descendente de africanos. Que venha um ator para interpretar o agente secreto mais querido da coroa britânica, descendente de africanos. Que venham a simpatia e volúpia! E sejam muito bem vindos ao padrão de beleza mestiço! Ilustra o texto obra do artista Tarcísio Veloso, “Primeira Aluna” (2020) inspirado em Ruby Bridges ativista estadunidense do movimento negro, conhecida por ser a primeira criança negra a estudar em uma escola primária só para brancos em Louisiana ainda no século XX.