PASSADOS / PAST

PHYSIS – O amor à natureza nas asas de um pássaro de sonhos.

O primeiro pássaro aponta para o início da exposição: o percurso tem sentido anti-horário, como forma de romper os hábitos de orientação dos ocidentais. Assim a fotógrafa nos convida a ter um olhar virgem, um olhar de criança que se aproxima das belezas da natureza pela primeira vez. Nesta mostra, esse tipo de beleza emana de imagens esfuziantes da Mata Atlântica, capturadas pelo olhar de uma fotógrafa-poeta.

O título da exposição é apropriado: Physis, palavra grega que pode ser traduzida por “natureza”, mas seu significado é mais amplo. Para os filósofos pré-socráticos, physis é a matéria que constitui o fundamento eterno de todas as coisas, conferindo unidade e permanência ao universo, que por sua vez é visivelmente múltiplo, mutável e transitório. Assim, physis não é a realidade pronta e acabada, mas o mundo em transformação. Tudo o que nasce se torna uma coisa e não outra, por causa da physis, o fundo imperecível para o qual tudo retorna, apesar da contínua transformação dos seres: o que é pequeno cresce, o que é grande diminui, os rios têm secas e cheias, e as árvores vêm das sementes, que produzem mais sementes, mais vida…

Cristina Oldemburg morava na cidade grande e agora reside em Araras, na Região Serrana do Rio de Janeiro. A mudança de vida provocou uma revolução na sua visão de fotógrafa: “Vim morar dentro de uma reserva ecológica da Biosfera – e isto influenciou meu olhar. Antes, eu olhava para o microcosmo da terra brasileira, numa geologia poética. Hoje volto meu olhar para a imensidão da Mata Atlântica, onde vivo. São imagens que circundam meu cotidiano, minha vida dentro da floresta…”.

O leitmotiv da exposição é a beleza da mata potencializada pela neblina matinal, que cria uma atmosfera de sonho e nuances inesperadas de meios-tons. O resultado é que vemos fotografias (escritas com a luz), mas também esquiagrafias (escritas com a sombra) e emisquiografias (escritas com a penumbra). A riqueza de luzes, sombras e meios-tons é a estética motriz da mostra, realçando a dança eterna da luz, o mundo em movimento, a natureza em transformação.

Ao mesmo tempo, a exposição é também uma homenagem ao cineasta japonês Akira Kurosawa, estimulada pelo filme Sonhos. Testemunha Cristina: “As imagens fotográficas parecem um sonho e me lembram o filme Dreams, de Kurosawa. O filme me marcou tanto, que um dia, de alguma forma, eu iria tentar criar e refletir sobre minhas próprias imagens oníricas. Sinto que meus olhos fizeram uma viagem deslumbrante pela estética japonesa e pela mensagem simples das belezas naturais…”.

Um segundo pássaro sinaliza o fim da exposição. Explica Cristina: “Os pássaros são hoje figuras permanentes na minha vida. Substituem o caos urbano em que eu vivia, com seu canto, todas as manhãs. Eles abrem e encerram o trabalho como seres que observam as imagens e contemplam o universo verde.

O pássaro, physis que voa e desafia o peso da matéria, é um símbolo de elevação da consciência, já que nossa mente também é capaz de voar. Com as asas da imaginação e o néctar desse sonho generoso de Cristina, o público poderá, a partir de agora, pensar em como ajudar a preservar a physis da nossa Mata Atlântica para as futuras gerações de brasileiros.

 

Mário Margutti – Junho de 2014

 

Mostra PHYSIS – UMA HOMENAGEM À AKIRA KUROSAWA, DE CRISTINA OLDEMBURG

Local: Potrich Galeria de Arte Contemporânea

Data de Abertura: 09 de Julho de 2014 às 20h

Exposição: De 10 de Julho à 10 de Agosto. De terça à sexta das 10h às 18h. Aos sábados de 10h às 14h ou com hora marcada.

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