O tempo não para

As divertidas e curiosas informações do engenheiro especialista em automóveis, Boris Feldman, me pegam desprevenidas quando estou dirigindo sempre que troco de estação de rádio entre uma propaganda e outra. Das mais recentes novidades do “Auto-Papo”, Feldman anunciava a inauguração da primeira concessionária virtual do Brasil da Fiat, em São Paulo, no Pacaembu. A ideia é ‘enxugar’ espaço e produção oferecendo ao cliente uma imersão virtual pelo automóvel através de óculos 3D e simulação do test-drive como num jogo de videogame. O cliente também poderá escolher através de uma tela digital os assessórios, a cor e o modelo do carro. Um verdadeiro passeio virtual como o que vem acontecendo com empreendimentos imobiliários, onde o cliente acessa o imóvel através de óculos 3D que o conduzem ao interior do ambiente na sua escala real.

Tudo isso é bem inovador e tecnologicamente extraordinário dada a rapidez e facilidade como as coisas vem acontecendo. E não para por aí! A Arte como uma boa pré-Ciência da Humanidade não perde sua majestade para nenhuma outra área.

A magnífica exposição do artista austríaco Immersive Gustav Klimt, no Centro Cultural de Artes Virtuais, o L’Atelier des Lumiéres, em Paris, que abriu no início deste ano teve prorrogada sua data de encerramento  até dia 6 de janeiro de 2019 de tão concorrida e extraordinária que é. O espaço fundado em 1835, como uma fábrica de fundição permaneceu em propriedade da mesma família por quatro gerações até a crise de 1929, passando por algumas transformações até finalmente se tornar um ambiente para as Artes Visuais ou Virtuais e seus experimentos imersivos.

A mostra conta com 140 projetores que projetam mais de 3000 animações digitais de até 19m de altura e alta performance sonora com trilhas da época remixadas, o que leva o espectador a admirar cada detalhe das obras e o modus operandi do trabalho artístico do austríaco. As pinturas aparecem e desaparecem sobrepondo umas às outras num filme de imagens coloridas que vão tomando forma até se completarem em escalas significativamente deslumbrantes.

A maravilha que se pode presenciar é a união de um antigo trabalho artesanal produzido no atelier do artista durante anos de dedicação, projetado em constante movimento, som e tecnologia nas enormes paredes do antigo prédio da fábrica francesa, que agora abriga mostras de Arte Virtual.

Fica só uma questão, que Boris Feldman enfatizou ao findar seu “Auto-Papo”: “E o cheirinho de carro novo, como é que faz?” Olha, Boris, eu não sei, mas o cheirinho de tinta também é sedutor, assim como o tato com um livro ou o paladar numa degustação. Mas não podemos negar que a tecnologia veio para ficar e as instituições terão de se reinventar para prender cada vez mais a atenção do espectador. Assim como aconteceu com a ruptura do desenho de observação com o advento da fotografia e seus desdobramentos com os vídeos-performances, a arte cinética e o cinema. A tecnologia também terá de se reinventar para aguçar os nossos cinco sentidos. Afinal, como a Arte é uma pré-Ciência, já dizia o poeta Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um Museu de grandes novidades. O tempo não para, não para”.

47682515_287521882106318_5175402215489142784_nOs clássicos “Beijos” numa divertida montagem. Via @failunfailunmefailun