O saber da loucura

“A Humanidade nunca soube muito bem quem são seus loucos. Na sociedade primitiva os loucos eram tratados como Deuses. Na Idade Média eram queimados vivos. Só a partir do séc. XIX surgiram hospícios e os malucos passaram a ser considerados aquilo que realmente são, ‘doidos varridos’.  É neste contexto que surge a figura de Simão Bacamarte, a quem Machado de Assis (1839-1908) chamou de ‘O Alienista’.” (Narração de Marcelo Taz para minissérie na TV, em 1993)

Um pouco extenso para conto, um tanto curto para novela o livro foge dos padrões comuns, o que é literalmente a sua finalidade. Escrito em 1882, a história se passa no interior do Rio de Janeiro interagindo com figuras públicas da época como D.Pedro II, que convida o médico à ocupar a Presidência dos Ministérios, cujo convite é recusado para sua obsessiva dedicação à Ciência. A atmosfera colonialista ganha fervor com a caricatura de cada personagem e suas loucuras pessoais diagnosticadas pelo protagonista, Doutor Bacamarte, que concebe a Casa Verde, um hospício para os habitantes da pequena Itaguaí.

“Muita gente daquela época começou a nutrir uma fé que não havia limites para a Ciência. Mais do que isso, começaram a crer que qualquer ‘coisa’ feita em nome da Ciência deveria ser necessariamente boa. Uma ‘coisa’ que iria levar ao progresso. A história do século XX provou que não foi exatamente assim.”

A conclusão da jovem youtuber Isabella Lubrano, do Canal “Ler antes de Morrer”, é sobre o livro de Machado de Assis, mas poderia ser de um ponto de vista do francês Michel Focault (1926-1984). Célebre filósofo do século XX, Focault criticou a burguesia do estado moderno capitalista incluindo a polícia, o sistema prisional e a psiquiatria. O filósofo angariou a simpatia da elite intelectual francesa, ganhou o reconhecimento de Jean-Paul Sartre e do engajado público universitário ao redor do mundo. Educado em instituições elitizadas, Focault era contra tudo ou quase tudo que vinha de seu pai, um médico bem sucedido da alta classe francesa. Na Universidade, decorou seu quarto com obras de Goya negando, todavia e sempre as intenções de se formar em Medicina como o pai. Aos 22 anos, tenta suicídio e é internado numa clínica psiquiátrica, o que culminou ainda mais em suas pesquisas e rupturas de padrões da sociedade, resultando num desdobramento de idéias e novas perspectivas sobre a Filosofia Contemporânea. Focault escreveu muito, alguns de seus importantes escritos destaco: “A História da Loucura” (1961), “Arqueologia do Saber” (1969) e “Histórias da Sexualidade” (1976).

Contrapondo a sociedade ao sistema capitalista, ele aponta as causas e problematiza cada período, suas peculiaridades, progressos e retrocessos. No século XVIII, por exemplo, a repreensão ao sexo e sua censura negligenciariam mais tarde uma excessiva projeção midiática, transformando o prazer em mercadoria, ciência e tecnologia. Seus profundos estudos confrontaram a Scientia Sexualis (Ciência Sexual), observando com certa nostalgia em culturas como Roma (pinturas e artefatos de Pompéia), Índia (Kama Sutra), China e Japão (Shungas) de onde detectaria uma regra, a Arte Erótica, que vinha mais para entender o sexo do que rotulá-lo, conforme as tradições Orientais. A inconsequente modernidade que pretendia ter progresso científico acabou, em verdade, perdendo a espontaneidade e a imaginação sobre o sexo e seus mistérios. Ainda bem que os escritores, os filósofos e os artistas antecipam estas causas e (d)efeitos em nossa sociedade, assim nos atentamos a dar olhos e ouvidos a quem realmente tem o saber da loucura para um futuro mais saudável!

Ilustra o post obra do artista goiano Pitágoras premiado nacionalmente e selecionado em importantes mostras de arte no País e no estrangeiro, dentre elas “Erótica – Os Sentidos da Arte”, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2005.

50969891_938667926521940_7678514262314057728_nPitágoras, intervenção sobre Calendário da Imprensa Oficial, 80 x 60 cm, Governo de São Paulo, 2008.