E o que será, que será?

Ninguém mais com a doçura do pernambucano, Gilberto Freyre para descrever a história da formação cultural brasileira. Ele descobriu entre escritas certas por linhas tortas, que a rapadura é doce, mas não é mole não e também que sua matéria-prima produz a cachaça, o combustível e a energia vibrante “de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta” (Milton Nascimento). Em comemoração ao Dia das Crianças e à Padroeira do Brasil, antecipo a data 12 de Outubro para prestar minha homenagem às futuras gerações e à Santa “barroca” (aqui o termo do estilo apenas como um trocadilho), que abençoa esse povo e seus mais de 200 milhões de corações que batem em ritmo tropical.

Freyre descreve com sensatez como as raças ou etnias se encontraram, se confrontaram e se miscigenaram sem dramatizar ou romantizar a História. Relata a verdade, a moralidade e a hipocrisia da natureza humana em busca da sobrevivência, mas principalmente em busca do prazer e do poder. Disserta o paraíso dos colos coloridos das mulatas, de seus batuques, de suas comidas e da prioridade de seus seios fartos de leite para matar a fome dos bebês das Sinhás. “As amas de leite são as mães pretas que criaram o país e forjaram o povo brasileiro às custas de si mesmas e de seus filhos” (Conceição Freitas, via Metrópoles, 12/05/2019). Se por volta do século XVIII, uma segregação religiosa para os negros se constituiria com a insurreição da imagem da Nossa Senhora dos Pretos, a autoestima de um povo sojigado e ferido ousaria estar protegido por uma Santa de sua cor. Uma espécie de orixá ou deusa, que alimentaria as forças ocultas dos negros mandingueiros, das frágeis mucamas, das escravas do sexo, das amas de leite e dos quilombolas. O caso é que esta imagem feminina ofuscaria a agressividade da figura patriarcal de uma sociedade que cresceria e firmaria no imaginário escravocrata a delicadeza da mulher negra que cuida, amamenta, protege e abençoa seus fiéis. Se fosse pelo acaso ou pela coincidência (que em verdade, não existe), eu poderia dizer que a obra do artista, Tarcísio Veloso tem tudo a ver com o tema deste texto.

Na brincadeira de criança, situada num salão aristocrático pode se constatar toda a história brasileira, além-mar, dentro de um “Barquinho”. Em primeiríssimo plano está uma criança negra, bem vestida, bem penteada, bem brava. Em segundo plano mais duas crianças brancas e uma outra negra bem amedrontada, logo atrás da criança brava, bem penteada. Aí, nesta cena, um pequeno retrato escravocrata da sociedade brasileira, uma precoce babá, que cuida dos filhos da patroa e também do irmão mais novo. Eles brincam dentro dum lindo barco, cujo veículo velejado por pescadores, em 1717 pescou a imagem da Santa milagreira, a Padroeira do Brasil, a tal Senhora que apareceu misteriosamente, nas redes do Vale do Paraíba. O óleo sobre tela do artista baiano dimensiona os sentimentos de um povo ainda tão imaturo, mas carregado de feridas, tristezas e esperanças. Navega, navega barquinho, nas margens da imaginação, nos sonhos possíveis da realização, da bravura, da braveza das crianças que ainda se inspiram na aparição de um milagre, de um messias, de uma Nova Era.

Era? Foi? Será?

“E o que Será, que Será?” (Chico Buarque)

Feliz Dia das Crianças! Salve Nossa Senhora Aparecida!

barquinho

Tarcísio Veloso, “Barquinho”, óleo sobre tela, 180 x 160 cm, 2019