O que é arte?

No início deste ano, a obra “Diva”: chamada de “ferida vulva” ou “vulva gigante”, da artista pernambucana Juliana Notari causou uma polêmica envolvendo várias esferas da sociedade: princípios, lutas de gêneros, “ismos”, violência, estética e dicotomias. Sua obra comprova a verdadeira bomba de realidade que pode ser divagar sobre uma obra de arte, principalmente por sua gigantesca proporção.

Sobre os leigos: “melhor nem perder tempo pensando sobre isso”! Só que não! Leia também a reportagem que elucida o tema por Beta Germano .

A Arte, para ser boa, não tem necessariamente que ser bela. Esta semana navegando compulsivamente pelo Instagram eis que assisto um vídeo de uma representação em escala real de uma vulva rasgada feita de borracha tal como é comum acontecer em partos normais por causa do pique para a saída do bebê, mas e também na violência sexual doméstica. Neste caso o protótipo em borracha serviria como aula prática para a sutura da vulva. Pois bem! As simulações de vídeo-aulas demonstram a cirurgia em 3D de forma limpa, clara e didática. Mas quando o aprendiz tem que segurar a agulha com o fio de nylon para fazer os pontos na vagina da paciente, daí é uma outra história. Ali, de verdade, jorra sangue, exala um cheiro de álcool, iodo, formol, sons e gemidos, tensão e cuidado. A Arte, o ato do fazer com as mãos, a artesania é mais ou menos assim! Penetra em nossas entranhas demonstrando a que veio, doa a quem doer.

Sabe aquele velho ditado: “se não aprende no amor, aprende pela dor”?

Pois é: “Mentira”!

A gente só aprende mesmo com a dor ( porém, nas devidas proporções que cada um consegue aguentar). Se não aguentou, não evoluiu, não se transformou, permaneceu o mesmo… É na dor, amigos! Feliz ou infelizmente: “tarda, mas não falha”! E nem venham me dizer que são felizes, não sofrem, bla bla bla. Se não sofreu, não se transformou, continuou um leigo… A dor tinha que ser quase um prazer, um masoquismo, um aprendizado às forças, como estar amarrada e chicoteada, ou mordida pelo pescoço! Mas isso até que é bom. Para ser sincera é muito bom! Senão incomodou, senão doeu, você não entendeu ou isso não é Arte, não cumpriu a missão!

Olha só o exemplo da Yoga: “se tá fácil tá errado”.

O lema dos atletas em geral : “No pain, no gain“!

Discutir o tamanho da vagina, o efeito ambiental que ela causou para ser produzida e quantos funcionários negros trabalharam para cavar 33 metros das profundezas de vida feminina é só um detalhe para a grandeza de informações e resultados que ela vai explorar no inconsciente coletivo. Esta extraordinária obra está localizada na Usina de Arte, em Zona da Mata do Sul, Pernambuco.

Então, meus querides, saibamos que a vida é feita de realidade. Um médico não costura apenas uma boneca de borracha, ele sutura músculos, entranhas, orifícios, buracos, pus, fedor, odor, tumor… Da mesma forma que temos de aceitar a dura realidade da vida, temos de aceitar que a arte simula, através do fazer artesanal, as sensações que nos instigam a pensar na dor, nas consequências de nossos atos, em como podemos nos transformar e qual será o efeito final disso tudo para nossas vidas!

Ilustra o texto aquarela da ilustradora e artista, Emília Simon, que está participando do evento “Sensações” realizado pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora. Nascer mulher não é missão fácil, a vantagem é que aprendemos mais rápido a lidar com a dor, com a vulva, com o sangue, com a ferida. “O que não te mata, te fortalece”!