O que dizer!

O que dizer sobre o artista português, naturalizado goiano, que amava as maravilhas da natureza humana, a flora, a fauna, o folclore, a argila, a criação!

O que dizer do artista que criava figuras tão puras, ou primárias ou “primitivas”, tanto quanto uma criança, mas mandava o recado sobre a essência do homem e o lado “amargurecido” (amargo + amadurecido) da vida!

O que dizer deste senhor, com barba de “Papai Noel”, que moldava o barro e inventava bichos de um universo com seres híbridos para contar a História da Humanidade!

O que dizer dele, quando o conjunto de toda sua obra já demonstra tudo isso!

Eu diria somente que convivi desde criancinha com a beleza e o colorido de suas obras e o quanto a simplicidade de suas figuras me deram inclusão ao sofisticado mundo da Arte. O quanto foi fácil entender ou ter medo de alguma mensagem subliminar de seus temas bíblicos. Lembro a primeira vez que estive em seu atelier, uma criança curiosa, observando o mundo encantado deste mago das cores, onde há pesquisa, produção e muita brasilidade envolvida. Para mim foi como idealizar um cientista, um alquimista, um feiticeiro. A barba, os fornos, a fumaça, o cheiro de tinta, a argila por todos os lados, o caos ordenado, uma vida dedicada à Arte.

É compreensível que o naif continue tendo tanta força no complexo circuito da arte. Ele é uma expressão artística inclusiva, porque é simples e expressa o que há de mais naturalista no modo de viver, nos costumes, nos rituais, na natureza. Ainda que se assemelhe com os traçados infantis ou primários, há sempre um contexto muito engajado no tema abordado das obras.

Antônio Poteiro se embrenhou nas matas brasileiras, aprimorou seu conhecimento, principalmente nas margens selvagens do Pantanal e nunca abandonou a cultura que adotou como sua, ou vice-versa, a cultura abraçou este luso-brasileiro legítimo que expressou melhor ainda nossas origens, talvez até mais que muitos naturalmente aqui nascidos. O artista descobriu literalmente a “terra” brasileira através do barro que ele tanto moldou seus potes. O velho Poteiro, o Antônio português, que percebeu a beleza na simplicidade e nos presenteou com a complexidade de sua obra. O que dizer sobre alguém que já disse tudo!? A folclorista, Regina Lacerda disse para ele ser Poteiro, o curador Enock Sacramento diz sobre ele ser o Colorista do Brasil, eu digo que ele pode ser um Mago das Cores!

A obra “Mundo III”, 1985, é um painel que diz sobre a origem da natureza, a leveza e a dureza da sobrevivência, da labuta do trabalho e da morte. Seus estereótipos são o resultado de uma pesquisa particular, que caracteriza sua produção reconhecida mundialmente como uma das mais importantes para o estilo naif.

Pensando bem, ainda há muito que dizer por aí sobre ele!!!

poteiroAntônio Poteiro, “Mundo III”, 180 x 190 cm, 1985