O olhar da alma

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O protagonista do filme cult do diretor Stanley Kubrick, Laranja Mecânica,  Alex teve e tem como ‘marca registrada’, os cílios destacados no olho direito. Há uma versão da capa do livro de Anthony Burgess, escritor inglês da obra que inspirou o filme em 1962, onde o desenho do olho do personagem é representado por uma engrenagem. Daí a ideia do olho como mecanismo de movimento, de transformação, experimentação visual que transforma a mente e por consequência as atitudes, fazendo jus às constatações da fenomenologia e ao ditado “os olhos são a janela da alma”.

Na história antiga, o mito egípcio Hórus é representado pelo olho esquerdo como um amuleto. Conta lenda que o deus Seth arrancou o olho esquerdo de Hórus que simboliza o lado abstrato, feminino, a Lua, lhe restando o olho direito, que simboliza o concreto, o masculino, o Sol. O amuleto significa a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao Deus Hórus, que era usado em vida para afugentar o mau-olhado e após a morte contra o infortúnio do Além.

Outra curiosidade acerca das artes e dos olhos foi o último filme de Tim Burton (2016), o Lar das Crianças Peculiares onde os grandes vilões da história, os peculiares do mal, roubavam os olhos das crianças para se alimentarem e assim transmutarem sua forma de monstro para a forma humana. Essa característica dos antagonistas, inspirada na história e nas fotografias do livro de Ransom Riggs, um tanto bizarra e sombria, nos leva a crer que os olhos têm um quê bem ‘nutritivo’ e, sendo assim podemos os considerar um órgão ainda mais peculiar do corpo.

A animação de Travis Knight com produção da Laika, Kubo e as cordas mágicas também permeiam este tema. Kubo é um garoto prodígio que foi fruto de um amor proibido e tragicamente amaldiçoado pelo avô e sua tias gêmeas. Eles lhe roubaram o olho esquerdo, no entanto continuam a perseguição para conseguir o outro e condená-lo à escuridão numa tentativa de levá-lo à Lua para viver com eles lá pela eternidade.

Escuridão mesmo está na obra-prima do escritor português José Saramargo, Ensaio sobre a cegueira (1992), adaptado para o cinema pelo cineasta Fernando Meireles. Num misto de agonia, sofrimento, tortura e delirantes acontecimentos que protagonizam a nefasta história, um surto de cegueira numa grande metrópole afeta parte da população que é levada em quarentena para o hospício da cidade. Lá, a única pessoa que enxerga é uma mulher, esposa do médico.  Ela vê tudo, todas as atrocidades cometidas por um grupo que se instala e abusa sexualmente, além de dominar a comida, o espaço e tudo mais que lhes confortem. Ela confessa ao marido que preferiria não enxergar a ter de ser obrigada a ver tudo àquilo que um ser humano (ou desumano) é capaz de fazer.

Há rumores atualmente, não de cegueira, mas da falta de visão por grande parte da população. Talvez o excesso de contato dos olhos com eletrônicos: televisão, computador, celulares, smartphones, iphones, ipads, ibooks, caixas e cardápios eletrônicos. Essa falta de visão do mundo real, do olhar para natureza e para o próximo acaba por atrofiar o olhar verdadeiro, o olhar da alma.

Estamos passando por tempos sombrios, tempos de observações incoerentes, tempos de Hamurabi: “olho por olho, dente por dente”. Cabe a cada um de nós a autocrítica, a autoanálise e o bom senso, pois o vermelho é sempre verde ao daltônico, mas isso não significa que ele possa avançar. Que a luz do fim do túnel venha para nos iluminar e não nos cegar.

“Aprender a ler o que um olhar nos diz é alfabetizar sentimentos” Gandhi

O desenho em nankim que ilustra o texto é “Transmutação”, de Wés Gama, 2011.