O milho

(…)“Cavador de milho, que está fazendo?

A que milênios vem você plantando capanga de grão dourados a tiracolo.

Crente da Terra, Sacerdote da Terra

Pai da terra

Filho da terra

Ascendente da terra

Descendente da terra

Ele, mesmo; terra.

Planta com fé religiosa

Planta sozinho, silencioso

Cava e planta

Gestos pretéritos, imemoriais

Oferta remota patriarcal

Liturgia milenária

Ritual de Paz

Em qualquer parte de terra um homem estará plantando

Recriando a vida

Recomeçando o mundo”(…)

O “Poema do Milho”, da poetisa goiana Cora Coralina é uma ode à fertilidade, ao plantio, à colheita, à culinária, à brincadeira, ou inúmeros predicados que esta planta exerceu e exerce na História da Humanidade. O milho é símbolo na mitologia maia sobre a criação dos homens, na mitologia africana é também oferenda aos orixás e na mitologia indígena é ingrediente fundamental para o grande brinde no Xingu, na festa do Kuarup. A bebida fermentada a partir desta planta é uma espécie de cerveja, o Cauim degustada em celebração ao primeiro homem a habitar a Terra! A sensível homenagem ao alimento é um culto aos ancestrais e uma generosa contribuição cultural à literatura brasileira. Além do “Poema do Milho”, Cora também escreveu a “Oração do Milho” mais uma vez homenageando esta planta sagrada, cheias de predicados e base nutritiva dos nossos ancestrais.

O Coletivo Tremma, pela segunda vez convida a curadoria da Potrich Galeria para participar do evento dedicado à Cora Coralina, que será realizado durante os dias 5, 6 e 7 de dezembro numa Galeria de Arte, em São Paulo. Foi com muito prazer que aceitamos o desafio de ilustrar através do nosso acervo a trajetória desta senhora que aos 76 anos de idade publicou seu primeiro livro. Sua história é um conto de coragem e orgulho para nós goianos, inebriados numa terra colonizada por coronéis e bandeirantes sedentos por explorar nossas riquezas, como é até hoje.

Cora Coralina é a menina feia da casa velha da ponte, que registrou a natureza humana e as tantas armadilhas do destino em retas linhas, por letras certas. Reinventou sonhos e delicadezas em momentos de dificuldades adocicando a vida com sua culinária e seus doces poemas. Para ilustrar seu verso ninguém menos que o renomado artista, Dalton Paula.

“Dalton Paula vem transitando por pintura, objeto, instalação, performance, fotografia e vídeo, sem estabelecer uma ordem hierárquica entre os diferentes meios e sem que haja perda de seu potencial poético expressivo, uma vez que a escolha de cada suporte advém da ideia poética que o artista pretende tornar realidade (…) Essas ações são marcadas pela interpretação crítica de acontecimentos históricos ou cotidianos, pela impregnação de um aspecto religioso, místico, advindo dos cultos afro-brasileiros, pelo uso de seu próprio corpo e de imagens de corpos alheios, pelo confronto de alteridades entre o autobiográfico e o outro apropriado, pelo choque entre o forte e o fraco, entre o senhor e o escravo, pelo desfazimento das demarcações das funções e dos territórios de direitos, que à base da violência foram constituídas no quadro social brasileiro”. (Prêmio Pipa)

Um desafio mágico ilustrar a história de nossa poetisa no mundo maravilhoso das Artes Visuais (que é a nossa praia). Agradecemos ao Coletivo Tremma a confiança e por mais uma oportunidade de participar deste evento, só que agora, na terrinha da garoa! É para lá que vamos nós, como Cora Coralina: “quebrando pedras e plantado flores”.

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Dalton Paula, pintura