PASSADOS / PAST

O Espelho e o Atirador

.

FERAS E FLORES

.

(…)
Colho flores de esperança
sob o quieto chão de relva
onde trêmula passeio.
Colho flores em segredo
para a vida que me foge
para a morte que me espreita.(Diva Goulart em “Colho Flores”)

O Homem e a sua caça. O Homem e os seus medos. O Homem e as suas cavernas, suas memórias, suas lembranças. O Homem e o seu espelho. Esse é o terreno, esse é o território no qual Leonam Fleury prepara as bases de sua estratégia de ação artística, a sua linguagem, o seu combate.
A arte é a consciência do tempo. A arte é a metáfora de um pensamento. A arte é o instrumento básico de ação e de consciência humana, a arte define e qualifica o Ser. A arte é o gesto, a voz, o verso e o reverso, as imagens e seus reflexos. A arte é, primeiramente, transformação.
O tempo conspira e inspira o artista. Tudo em Leonam Fleury parece impregnado de história. Nessa arqueologia da memória o artista constrói e enfrenta as suas lembranças, suas lendas, seus resquícios e resíduos, suas memórias, seus fantasmas e suas fantasias, as belas e as feras de um cenário intenso e misterioso. Aqui, na verdade, o palco é fato, é fábula do real.
Toda produção do artista repousa na clareza e na interpretação do real, interferindo e transformando a realidade sem dela se abandonar por inteiro. A figuração aqui é viva, é Vida, fonte e jorro de poesia. Sem temer o caráter ilustrativo, Leonam Fleury o supera através do principal instrumento do artista: a inteligência. Suas imagens são esquemas mentais nas quais a luta, o mistério, o medo e o afeto articulam-se de maneira ordenada e poética, regida pela clareza e por uma espécie de silêncio que acentua a sua força expressiva.
Dos grandes painéis pictóricos às pequenas gravuras e desenhos que compõem grande parte da produção do artista aflora a evidência de uma linguagem estruturada, pensada e executada com precisão de um artista que comanda seus instrumentos como um maestro comanda a sua orquestra. Por isso não importa a técnica, nem mesmo as dimensões. Toda a produção de Leonam Fleury é fruto do talento e da inteligência, mas é também, e principalmente, o resultado de uma emocionada e sensível honestidade intelectual. A ética, aqui, rege o espetáculo.
No mundo contemporâneo, tão intenso e questionador, determinado pelas “contaminações” e pelos “deslocamentos” o suposto anacronismo de uma produção tão claramente acentuada pela clareza e pela elegância pode surpreender. É importante, portanto, que deixemos o nosso olhar aquietar-se, passear pelas imagens criadas pelo artista, deixar que elas se desnudem lentamente e revelem, enfim, a perene beleza das coisas silenciosas.
.

Marcus de Lontra Costa
Rio de Janeiro, julho, 2006