O descobrimento de ser angry

Pode parecer infantil, mas por coincidência meus filhos insistiram de assistir ao longa metragem do desenho animado Angry Birds pela quinta vez. Coincidência ou não o filme conta o ponto de vista do protagonista Red, um pássaro zangado e as estratégias que usa para alertar sua aldeia sobre a suspeita visita de porcos estrangeiros. A paródia vem a calhar com o Descobrimento do Brasil, ou como diria Darcy Ribeiro, “Achamento do Brasil”, comemorada hoje, dia 22 de Abril, quando supostos desbravadores de terras distantes pisaram em território indígena já com segundíssimas intenções.

A animação é perfeitamente bem adaptada para o contexto atual, pelo menos para visualizarmos o que aconteceu há 500 anos. A aldeia de pássaros, que vivia em plena harmonia, salvo a personalidade de caráter duvidoso de alguns personagens (como o Juíz Coruja), era administrada com civilidade e a peculiaridade da loucura dos personagens no convívio social. O fato é que com a chegada de uma imponente Caravela tripulada por centenas de porcos, a vida na aldeia muda completamente.

O argumento dos porcos ao atracarem no território do bando para se instalarem e logo se tornarem amigos destes ingênuos bichinhos era o de lhes proporcionarem a tão batida estratégia de domínio, a do “pão e circo”. De imediato, os porcos organizam um espetáculo circense com música folk e os porcos ganham a empatia da Coruja e dos demais pássaros da aldeia, com exceção (claro) de Red, o pássaro zangadão.

Por analogia o filme ressalta um pouco a ideia do livro de George Orwell, a “Revolução dos Bichos”, onde os estrategistas, os porcos, tomam o poder dos humanos e passam a controlar a sociedade dos animais de forma obtusa e suspeita. O que antes pareceria um método de política coerente e socialista passa a ser tirânico e ditatorial. As voltas e reviravoltas das histórias ganham significado com a luta de classes, no caso de Angry Birds, a luta das espécies, os pássaros contra os porcos, ou no caso da Rússia, bolcheviques contra mencheviques, no caso de Pedro Alvares Cabral, índios contra portugueses, no caso do Brasil atual, pobres contra ricos e por assim vamos.

Entender de forma lúdica essas estratégias de domínio e aceitar as condições que a política nos impõe é o grande objetivo dos zangadões de plantão. O protagonista Red tem uma personalidade forte e, por natureza, uma característica antissocial. Ele desafia o sistema e delata com muito esforço o plano de domínio de seus adversários, embora sofra constantes repreensões e censuras. Quando o verdadeiro artista e, quando digo artista, digo no contexto dos que exercem a arte como profissão, os verdadeiros escritores, atores, arquitetos, cineastas, músicos, dançarinos… Aqueles cuja personalidade possa ser um tanto zangada, estes sim estão verdadeiramente em busca de um método político coerente e humanista. Não há como, em sã consciência ser um artista feliz enquanto vivermos numa sociedade doente e desigual. Se o artista que você conhece é feliz, então ele não é um artista verdadeiro. O Red é um estrategista, um arquiteto, um pássaro inconformado e em busca da verdade, porque foi a partir de questionamentos e insatisfações que ele descobriu as más intenções e tentativas de domínios de espécies ditas mais evoluídas que as dele. Red ganhou a disputa contra os porcos através da união de sua espécie a seu favor e conseguiu esclarecer a todos de que ser um tanto zangado é um tanto vantajoso.

CabralOscar Pereira da Silva, “Desembarque de Cabral”, 1922