Mulata

“Di Cavalcanti pintou muitas mulheres negras, frequentemente erotizadas através de blusas decotadas, seios delineados, olhares sedutores e nomeadas genericamente ‘mulatas’ – termo de origem racista que reitegra a objetificação e o apagamento das personagens retratadas. Num contexto em que a ‘mestiçagem’ foi eleita como símbolo nacional o pintor participou da criação de um imaginário para a mulher negra que, embora ganhasse representatividade era reduzida à sua sensualidade. ‘Mulata/Mujer’, de 1952 destoa desta imagem estereotipada. Aqui a mulher tem um semblante seguro, sua postura firme, de um olhar altivo. Vemos seus braços, mãos, pescoço e rosto negros, mas não seu colo. De saia branca ela porta uma camisa com delicados motivos de folhagem sobre um fundo colorido compondo uma espécie de pintura dentro da própria pintura, no estilo tipicamente tardio de Di Cavalcanti nos anos de 1950.”

O texto descrito, publicado no Instagram do @masp_oficial é de Guilherme Guifrida e deixa bem claro seu ponto de vista histórico sobre a trajetória do artista e as mudanças socioculturais do país. Há uma passagem no livro de Gilberto Freire, em Sobrados e Mocambos onde o sociólogo ressalta que com a urbanização das cidades o distanciamento entre brancos das Casas-Grandes e os negros, das Senzalas relativamente diminui com a aproximação dos brancos dos Sobrados e os negros, caboclos e pardos livres dos Mocambos. A relação entre os opostos se daria por “aptidões artísticas”, ou “intelectual extraordinário” ou ainda “qualidades de atração sexual”, que seriam as causas da miscigenação e ascensão social das classes menos privilegiadas.

A “mulata” dos tempos da escravidão e do início do século XIX não seria mais que um objeto sexual para os seus Senhores ou a reprodutora oficial de mais escravos para as monoculturas deste período. As mudanças políticas, econômicas e culturais transformariam a sociedade e delineariam um novo trajeto da miscigenação brasileira. Também no livro há curiosas descrições de ricas donzelas prometidas que fugiram de seus casamentos para se apaziguar com “mulatos” fortes e inteligentes.

Tal qual como descrito em artigo anterior, é chegado o momento de privilegiar os olhares dos verdadeiros artistas, dos altruístas e principalmente, das mulheres sensatas. Mulheres que se posicionam com um “olhar altivo”, uma “postura firme”, uma roupa apropriada, uma atitude coerente e sensível. Deveríamos estar em busca de mais sensibilidade ao invés de sexualidade, de mais humanidade ao invés de brutalidade. O fanatismo religioso, o falso zen-budismo e outras formas de dominação psíquica limitam os sentidos, as nossas verdadeiras emoções. A verdadeira Arte associada à Sociologia e à História proporciona um olhar mais humano, mais coerente da nossa sociedade. Que todas as mulatas do Brasil se inspirem na qualidade distinta e altiva da “Mulata/Mujer”, de Di Cavalcanti, que sejam sensatas com seus pais, com seu marido (namorado ou namorada), filhos e netos, pois elas são o berço materno do carinho e da sororidade do futuro do país.

mulataDi Cavalcanti, “Mulata/Mujer”, 1952, via Pinterest