Miopia

O último “meme” da semana foi a campanha narcisista nas redes sociais em postar o antes e depois de 2009 e 2019. Em minha opinião a postagem mais autêntica, criativa e realista foi a imagem da placa do teste de visão mais ou menos embaçado em 2009 e totalmente míope em 2019. Creio que a Arte Contemporânea, de certa forma, está sendo produzida para demonstrar exatamente isso, o quando estamos ficando míopes. Estabeleceu-se uma miopia coletiva, que até o prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, José Saramago (em “Ensaio sobre a cegueira”) já profetizara.  Não há sentido em ter sentido. A moda é não sentir, ou como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “tempos líquidos”.

A Arte Contemporânea explora significativamente este fator crucial da sociedade, o sentimento, mas é pouco compreendida pela maioria, ou pela massa. Há quem visite a mostra “Raíz”, do artista chinês Ai Weiwei, na Oca, no Parque Ibirapuera, em São Paulo e se admire, se inspire ou até se sensibilize com toda a montagem e curadoria da mostra, mas não consiga realmente enxergar a verdadeira mensagem por trás de toda beleza estética da obra. Ai Weiwei nos direciona a olhar com clareza e nitidez a profundidade da natureza humana, expondo seu ponto de vista crítico sobre o modus operandi de sistemas neoliberais, totalitários, o obstinado egocentrismo e a incansável busca do homem pelo poder.

A mostra História Afro-Atlânticas, embora com um recorte temporal de mais de 200 anos de produção artística, teve uma curadoria contemporânea apesentada no MASP e no Instituto Tomie Ohtake e tomou proporções épicas à respeito da investigação da nossa nacionalidade e miscigenação. Integrando inúmeros artistas mundiais, obras e suportes que permeiam o universo primitivo da nossa constituição étnica sendo, por assim dizer, um marco na História da Arte Contemporânea Brasileira foi considerada a melhor exposição do ano de 2018, pelo New York Times.

Não é preciso fazer a escala GYN-SP para termos um embate artístico contemporâneo, quando se tem a mostra apresentada pelo Centro Cultural Oscar Niemeyer “Um corpo no ar pronto pra fazer barulho”. A curadoria com jovens artistas nacionais explora assuntos da contemporaneidade com pouca miopia, muita nitidez, certo sarcasmo e um modesto engajamento sobre temas polêmicos como o racismo, feminilidade, homossexualidade e as causas e efeitos da transgressão urbana como discurso político. Não fosse a “feiura” de algumas obras, a histeria das videoinstalações e um tímido revival da Arte Povera eu diria que a beleza está em enxergar a realidade como ela é, o tal bordão do momento:  “aceita que dói menos”.  A mostra não é colorida, nem tem a leveza estética como a da exposição na Galeria acima, apresentada pelo veterano professor-arquiteto-artista, Taí Hsuan-An. Escadas abaixo se apresenta um choque cultural, um contraste às cores e à singeleza da arte do experiente chinês-goiano, onde a juventude brasileira espalha por toda atmosfera do subsolo do Museu um transe social, associado ao caos urbano da vida contemporânea. Só enxergará esta verdade quem tem sentimentos à flor da pele. Os míopes nada verão! À miopia, só restará o inverno! A mostra fica até 17 de Março, vale conferir!

corpoUma das obras da mostra “Um corpo pronto pra fazer barulho”, no CCON, do Projeto “Trampolim – mergulho para jovens artistas”.