Minha pátria, minha língua

Há rumores de que muitas celebridades estariam se mudando para Portugal por uma série de vantagens que o país oferece, ao contrário do nosso país, onde encontramos mais desvantagens e menos motivos para ficar.  O colunista da revista vanguardista TRIP, André Caramuru faz uma observação pertinente a respeito da nossa incurável síndrome de ex-colônia, que por um longo período recebeu o império português adotando costumes dessa cultura e introduzindo leis, métodos e estratégias dos conhecimentos advindos das Universidades de Coimbra e Lisboa para a sociedade brasileira.  Caramuru finaliza seu texto com sabedoria e uma boa pose de ironia: “Por décadas fizemos piadas e rimos dos portugueses. E quem está rindo agora? Se os portugueses acertaram o rumo, será que nós não conseguimos? Eles deixaram de ser o país do passado. O que precisa para deixarmos de ser o eterno país do futuro?”

A FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), deste ano, homenageia a Língua Portuguesa com uma lista de escritores que usufruem da flexibilidade dos sotaques, gírias e neologismos desta prima-irmã do latim, mãe do Fado, de Camões e do regionalíssimo bacalhau, “ora, pois”! A também vanguardista Revista VOGUE, deste mês aproveitou o tema da FLIP e divulgou sua capa com uma deslumbrante modelo angolana mostrando a língua para os racistas caretas de plantão. O título, em letras rosa bordô traz o verso da música de Caetano Veloso: “Minha Pátria é minha língua”. VOGUE dedicou duas páginas à artista contemporânea, que nasceu em Paris e adotou Portugal como pátria-mãe. Joana Vasconcelos representou Portugal na Bienal de Veneza, em 2013 e foi a primeira mulher a expor no Palácio de Versalhes.  Naturalizada portuguesa, Vasconcelos é a primeira mulher a ganhar mostra individual num dos museus mais importantes do mundo, o Guggenheim Bilbao.

Meu primeiro contato com sua obra foi no CCBB-DF, na mostra coletiva “CICLOS – criar com o que temos”. A obra selecionada pela curadoria da mostra foi “A Noiva” (2001-2005). Feita com uma grande estrutura de metal, o gigantesco lustre suspenso é composto por 25.000 absorventes internos. A plasticidade da obra é impressionante, mesmo porque você deve se aproximar dela para descobrir o porquê desse título. A feminilidade em sua produção é uma virtude. Ela investiga a cultura portuguesa de uma maneira gentil e delicada, falando na maioria das vezes mais com a própria mulher e a interpelando sobre qual seria de fato a posição de cada uma na sociedade.

tampoes 1“A Noiva” (2001-2005), Joana Vasconcelos, no CCBB-DF, 2015.

Sua mais recente produção foi a obra “Eu sou seu espelho”, onde mais de 400 espelhos cuidadosamente moldurados são suspensos na forma de uma máscara veneziana. Joana Vasconcelos investiga as perguntas que devemos nos fazer. “Ora, pois”, onde procurar as verdadeiras respostas senão em nós mesmos? A máscara e o espelho são elementos ambíguos, assim como os absorventes internos, da obra “A Noiva”. Na mente coletiva a noiva vem de branco, por sua pureza, por ser virgem. O lustre ganha dois significados, o glamour da cerimônia do casamento e a rotina sem graça da mulher com seus ciclos menstruais. A Revista VOGUE a descreveu como “Mestre em ambiguidade” e a artista confirmou: “Ter tudo e não ter nada é uma ideia muito expressada no Fado. Uma das minhas fontes de inspiração”. O fado é um mantra português, um ôde à vida, ou não. No Brasil seria o nosso samba de raiz, de Cartola, Noel Rosa. Deixamos de escutar nossas MPB’s de raiz, para ouvir tecno brega, ou sertanejo universitário, ou funk apelativo. Diga se de passagem, até que tá bem justo que os portugueses comecem suas piadinhas sobre as futilidades dos brasileiros. Também, escutando esse tipo música!“Oh, pá!”

arte que acontece“Eu sou seu espelho”, Via Arte Que Acontece, no Guggenheim Bilbao